O que eu perguntaria a um deus?

Por Phillippe Watanabe

Ex-Machina

A conversa entre obra e criador talvez fosse menos amigável e filosófica do que gostaríamos de imaginar. Só o fato de ter sido conscientemente criado já pressupõe uma assustadora fragilidade – quem me fez pode me destruir quando quiser. Torcemos pelo livre arbítrio para afastar a imagem da destruição. Mas o que eu perguntaria a um deus? Essa, possivelmente, é uma das principais perguntas que move Ex-Machina.

O filme de Alex Garland (escritor de diversos outros projetos e estreante na direção) toca no assunto possivelmente mais caro ao ser humano – vida. A exploração do espaço e o maior conhecimento sobre nosso próprio mundo já extrapolaram as noções prévias que tínhamos de vida. A história de Garland busca afrouxar um pouco mais essa linha ao incluir robôs na ideia do “viver”.

Não é a primeira vez que fazem isso no cinema, mas o modo bem-acabado e conduzido do filme coloca-o ao lado de clássicos como A.I. – Inteligência Artificial e Blade Runner. Alex Garland deixa o lado humano e se junta a lendas.

Os criadores de vida da história são pessoas familiares para nós. Duas das personagens principais – Nathan e Caleb – são programadores. Isso nos traz para uma realidade presente ou, no máximo, um futuro muito próximo. Segundo o filme – e observando o mundo à nossa volta –, as formas de inteligência artificial estão tocando a campainha. Outro ponto que merece destaque é o modo como os programadores são vistos na história. Não são raros os momentos em que Nathan – criador da máquina que apresenta I.A. – é comparado a um deus ou a um artista.

O filme, de direção relativamente simples, ganha enorme peso pelas ótimas atuações do trio de protagonistas. Caleb (Domhnall Gleeson) é o programador escolhido para conhecer e trabalhar com o dono de sua empresa, que vive isolado em um lugar quase paradisíaco. Segundo palavras de outras personagens do filme, “é uma pessoa com moral”. Já Nathan (Oscar Isaac), chefe de Caleb, encontra-se no lado oposto do espectro. Uma pessoa arrogante, com temperamento explosivo e aproveitador, e um mentiroso. Finalmente, Ava (Alicia Vikander) é a robô criada com I.A..

É impressionante ver Oscar Isaac atuando. A figura solitária, alcóolatra, grosseira e ameaçadora que encarna em Ex-Machina se choca com outra personagem conhecida de Isaac – o sensível e lânguido Llewyn Davis, de Inside Llewyn Davis (2013). Pensar nessas duas personagens dá uma indicação do poder de atuação de Oscar Isaac.

Chegamos, então, a Ava – vale a pena aqui uma breve análise do nome da personagem; considerando o contexto e o assunto do filme, não é ir muito longe supor que Ava = Adão + Eva. A atuação de Alicia Vikander como uma robô humanoide é um ponto de destaque. Sua expressão tranquila e curiosa passa confiança aos que a cercam. Seu ar de tranquilidade só some quando ocorrem as falhas de energia na instalação em que ela se encontra. Esse é o momento em que Ava parece mostrar sua real personalidade – todas as câmeras que a vigiavam agora se encontram desligadas – e que sua relação com Caleb se aprofunda. É nesse momento em que as conversas com os deuses do filme parecem acontecer. É nesse momento que Ava pergunta o motivo de sua existência e por quanto tempo mais ela será útil. Ava, com tais dúvidas, não é mais uma máquina. Ela é humana.

Descobrindo-se humana

Ex-machina se torna muito mais potente quando nos damos conta do que estamos presenciando. Não se trata somente de um filme de ficção científica sobre robôs e inteligência artificial. Ao percebermos que, na tela, todos são humanos, inclusive as robôs, fica claro que estamos vendo um filme sobre pessoas se aproveitando de outras pessoas e sobre, principalmente, abuso.

Nathan é claramente um homem perigoso, alguém que escraviza outros sem se preocupar com consciência. Nathan é um abusador, um estuprador. Ava e Kyoko (a outra robô mantida nas instalações) claramente têm consciência de si e, mesmo assim, esse fator é desprezado; elas continuam trancafiadas em gaiolas de vidro, sendo tratadas apenas como objetos. Objetificação. Isso lembra algo?

Sim, Ex-machina não é somente um filme sobre robôs. Estão falando sobre vida.

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