O homem das estrelas

por Juliana Mauésvlcsnap-2015-09-29-23h13m42s219

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Para falar de Starman (O homem das estrelas, 1984), mais um filme infinito dentre os tantos dirigidos por John Carpenter, comecemos pelo final. Trata-se de um rosto apenas, que, a preencher quase todo o quadro, sutilmente se ergue em direção ao céu, movimento este acompanhado em igual amplitude pela câmera.  Estamos diante de um jogo de olhares. O rosto em quadro é o de Jenny Hayden; o que ela olha é uma nave a levantar voo. Mas quem nos empresta o olhar, aquele  que se concentra com tanta fixidez sobre Jenny, é o homem do título, o homem das estrelas. É ele quem, da nave, a olha. Carpenter poderia ter optado pela visão espetacular da nave que ascende ao espaço, mas decidiu focar nesse olhar duplo a conclusão do seu filme e, assim, simultaneamente, filma o amor, a cumplicidade e faz de um simples contraplano uma obra-prima particular.

O plano final de Starman não poderia ser mais coerente com um diretor cuja obra lida tão diretamente com o humano. À exceção talvez do primordial Halloween, os personagens de John Carpenter não são metáforas ou simbologias ou arquétipos. Múltiplos e particulares, são sobretudo humanos – não há semiótica que os contenha. Mesmo em uma carreira construída no terreno do fantástico, nos gêneros de horror e ficção científica, os conflitos, embora potencializados pela presença do elemento sobrenatural, ao final sempre estão próximos dos temas que todos nós,  que nunca seremos infectados por um vírus alienígena ou encontraremos um homem do espaço, enfrentaremos um dia. Starman talvez seja onde isso tudo se torna mais visível, pois, sendo um filme sobre amor, é também um filme sobre alteridade, sobre o eu e o outro – e, sendo esse outro um ser extraterrestre, é ainda sobre esse conceito tão amplo e tão vazio que chamamos de “humanidade”.

Há seis meses, Jenny Hayden (Karen Allen) perdera o marido em um acidente. Há seis meses, ela está parada em uma daquelas encruzilhadas da vida onde às vezes estancamos sem saber que rumo tomar. É nesse cenário que o ser das estrelas, ainda não homem, aterrisa. O plano inicial do filme mostra o disco enviado junto com a sonda Voyager ao espaço, em que, em 54 línguas do planeta Terra, saudamos o viajante espacial e o convidamos a conhecer nosso planeta.  O visitante vem. Com o curso interrompido pela nada amigável recepção dos anfitriões – como é usual em Carpenter, o antagonismo ao herói comum se instala em redes administrativas burocráticas e orgânicas, aqui materializadas nos militares -, ele não chega ao destino previsto, mas, sim, aonde precisava chegar: Jenny Hayden.

Acompanhamos a visão subjetiva de um ser até então sem forma enquanto ele passeia pela sala de estar de Jenny, dentre as inúmeras lembranças do marido morto que ela, num misto de saudade e masoquismo, revia minutos antes. Uma mecha de cabelo em um álbum serve de matéria prima para a produção instantânea de um clone. Despertada pelo barulho, Jenny testemunha o acelerado desenvolvimento da estranha presença, desde a infância até a idade adulta, não acreditando nos próprios olhos, apenas para constatar ao fim o que o processo já apontava desde o início: quem está diante dela é o próprio marido (Jeff Bridges). A música que ambos entoavam no vídeo caseiro a que ela assistia minutos antes revela-se premonitória: whenever I want you, all I have to do is dream. Bastam alguns minutos, porém, para ela perceber que quem está ali não é o pintor de casas por quem se apaixonara.

O corpo que, no início, parece apenas um invólucro genérico, e um tanto desajeitado, a conter uma subjetividade que não lhe diz respeito algum, aos poucos, adquire feições próprias. Enquanto cruzam estradas pelo oeste dos Estados Unidos em direção ao local onde o visitante, cuja nave fora avariada, deve encontrar o resgate, Jenny e o ser das estrelas compartilham o veículo e as refeições, mas, tão importante quanto, compartilham também a si mesmos. E, assim, ao pinçar um ao outro do universo de pessoas genéricas e trocar o macrocosmo pelo micro, as nuances tornam-se mais visíveis. Embora aprenda sobre a humanidade através de Jenny – e de outras pessoas com quem encontra durante a jornada –, o homem das estrelas sabe que ali não é qualquer humana, mas Jenny Hayden. É ela porém quem consegue o maior esforço: aquele de, ao olhar o corpo do marido, ver outro – não outro que o habita, mas que o é em toda a plenitude que isso significa. É quando ela deixa de se concentrar no igual e passa a prezar o diferente: o nariz ainda intocado, os olhos que trazem em si algo de irrequieto e assustador.

E, assim, Jenny, que poderia ter fugido e abandonado aquele estranho – que, além de usurpar o corpo de um ser amado e coagi-la a sair de casa no meio da noite sem ter ideia do quê ou para onde, ainda lhe coloca repetidas vezes a vida em risco –, não o faz. É ele que, em certo momento, após perceber a ameaça que a proximidade entre os dois representa para ela – os militares seguem no encalço –, deixa-a, mesmo sabendo que a sua chegada bem sucedida ao lugar do resgate depende em muito do conhecimento que ela possui. Amor é quando você se importa com alguém mais do que com você mesmo, é a resposta de Jenny a mais uma das muitas perguntas feitas pelo visitante. A cristalização do sentimento vem em uma cena posterior e nunca a imagem clichê do trem que cruza uma noite chuvosa enquanto representativa do ato sexual foi utilizada de forma tão pura e primordial.

Voltemos ao final. Luzes multicoloridas em tons de azul e vermelho; na banda sonora, a música tema, leitmotif que evoca um sem número de sensações construídas no decorrer do filme todo; o casal protagonista; planos próximos, a despedida e o eu te amo guardado até aqui. Ela o vê afastar-se; nós o vemos. Corte seco para o close no rosto dela. As luzes vão se dissolvendo e a fotografia readquire os tons sóbrios; é a realidade que volta. Fade out. Jenny parece estar como no começo: sozinha novamente, outra vez abandonada. Os olhos que seguem a nave até o fim revelam a vontade de não deixá-lo ir, todavia há algo a mais neste olhar que se dirige ao espaço, ao infinito – bem ao contrário da expressão desolada das primeiras cenas, este é um olhar prenhe de expectativa. Jenny Hayden, afinal, não é a mesma. No vagão de carga daquele mesmo trem, Carpenter reencenara a sagrada concepção de uma mulher cuja prole era até então impossível. Poderia tê-lo feito por metáfora, mas nesta diegese o literal tem mais força e sentido: é por meio de uma criança a nascer que a nós, humanos – essa espécie primitiva; inteligente, porém selvagem –, é oferecida uma nova gênese.

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