O eu e o outro em um Planeta Fantástico

Por Guilherme Godoy

Planeta Fantástico (La Planetè Sauvage) é uma animação francesa de ficção científica experimental para adultos, lançada em 1973, baseada no livro “Oms em série”, de Stefan Wul, e dirigida por René Laloux. A obra trata de uma luta pelo extermínio e pela sobrevivência entre os Draags – seres azuis gigantes – e os Oms – seres humanos tirados da Terra para serem estudados pelos Draags, acabando por se tornarem uma praga no planeta Ygam – em um futuro distópico.

Dentro do conflito principal, o filme acompanha a trajetória de Terr, um bebê Om que, após perder a mãe em uma brincadeira inconsequente de crianças Draag, passa a ser o mascote de Tiwa – também uma Draag –, sendo submetido a uma série de abusos e opressões inconscientes por parte da garota e de sua família. Tiwa se apega a Terr e passa a tê-lo sempre por perto, permitindo que ele a acompanhe em seus momentos de aprendizado, o que confere ao Om o mesmo conhecimento da garota alienígena, ainda que os maus-tratos continuem por meio da forma como a garota ignora os sentimentos do pequeno e da própria ideia de supremacia intelectual e racial comum entre os Draags.

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Inicialmente, a ausência de empatia presente em Planeta Fantástico se expressa como uma sátira da forma abusiva como os seres humanos tratam os outros animais, subvertendo as posições e colocando, à visão, o lugar do outro. Contudo, os conflitos acabam por ser ainda mais complexos na obra, que engancha os maus-tratos a uma questão política de luta e sobrevivência. Isso se torna nítido na história de Terr, que resolve fugir de sua dona e passa a viver com Oms selvagens, transmitindo todo o conhecimento que seus anos de cativeiro lhe proporcionaram, de forma a fortalecer os seus semelhantes nas investidas de desomização (termo utilizado para a “dedetização” de Oms selvagens) dos grandes humanoides azuis.

Na obra, a crueldade e a necessidade de dominar dos Draags provêm principalmente de um não reconhecimento da inteligência dos Oms, levando-os a um estado de objetificação. Contudo, essa não é uma característica unicamente dos Draags, mas do planeta Ygam em si, uma vez que diversas cenas trazem o assassinato de animais selvagens por outros animais não domesticados pelo simples prazer de matar e oprimir. Aqui, diversos paralelos podem ser traçados com a sociedade em que vivemos, uma vez que a falta de empatia e de reflexão não nos faz subjugar somente seres de outras espécies, mas também da nossa própria por simplesmente serem diferentes ou fora dos padrões para o que é aceitável.

Neste ponto, para expressar a primitividade do planeta sem deixá-la ser consumida pela tecnologia avançada dos Draags, Laloux se utilizou de muitas formas arredondadas – em grande parte compostas por linhas complexas sinuosas e mistas –, como se todas as construções ou criações dos Draags fossem muito próximas de algo orgânico, em especial dos próprios animais, vegetação e dos minerais exóticos do planeta Ygam. Aqui, todos esses elementos são trabalhados em tons pasteis que não entregam a hostilidade do planeta por si só, o que potencializa a imagem por meio do inesperado e do choque em momentos de violência.

As muitas cores em tonalidades próximas torna impossível não perceber o contraste visual gerado pelo sombreado da obra, que se apresenta em traços escuros por meio do Cross Hatching e do esfumaçado e nos traz diferentes sensações de profundidade nas figuras isoladamente e na própria composição dos planos. Aqui, todo esse visual da obra nos é apresentado por meio de imagens estáticas, movimentos de zoom – especialmente nos rostos dos personagens em momentos de tensão e na apresentação dos espaços – e travellings laterais que acompanham o deslocamento dos seres nas cenas.

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Ainda na criação de sua atmosfera híbrida e hostil, Planeta Fantástico é trabalhado com trilhas sombrias de Blues e Rock Progressivo, incrementadas com sons de animais selvagens, sintetizadores e a distorção de alguns desses sons. Essa união traz a sensação de um extremo futuro e um extremo passado se encontrando e reforçando ainda mais o universo proposto para a narrativa, que se desenvolve em um ritmo relativamente lento, apesar de nos ser apresentada toda a vida de Terr.

Este meio onde o enredo se desenvolve e as próprias condições de vida dos Oms selvagens acabam por despertar neles uma falta de empatia semelhante a dos Draags, com resquícios de crueldade e resistência ao novo. Neste ponto, muitos dos Oms selvagens acreditam em deuses e ignoram o conhecimento científico que Terr traz, colocando-o para lutar com outro Om até que um dos dois morra, sendo Terr o vencedor. Temos aqui uma luta metafórica travada entre ciência e religião na obra, por meio da qual a primeira vence e os Oms passam a segui-la como uma verdade – um possível olhar pessoal de Laloux, que dedicou um período de sua vida a trabalhos de animação experimental com internos de uma clínica psiquiátrica e a obras de ficção científica, e além do próprio Stefan Wul, que era um cirurgião dentista e escreveu diversos livros dentro do gênero, ambos artistas e também voltados para as áreas das ciências biológicas.

Planeta Fantástico segue trazendo mensagens ainda mais fortes por meio da desunião entre grupos de Oms e entre esses seres com os Draags, mensagens essas que também ultrapassam a tela e podem ser aplicadas na vida do espectador. No obra, grupos inimigos de Oms selvagens acabam se unindo pela tragédia após serem massacrados pelos Draags e, juntos, criam um império Om ainda maior e mais desenvolvido tecnologicamente. Esse grupo invade um planeta-satélite de Ygam, o Planeta Fantástico, para onde projeções mentais em bolhas dos Draags feitas a partir da meditação viajam e dão vida a estátuas gigantes, baseadas em corpos humanos sem cabeças. Os Oms percebem que a integração das estátuas com as projeções dos Draags – e os rituais nupciais que esses seres realizam com os corpos – são a fonte de energia e o segredo de sua vida longa. Então, resolvem destruir essas estátuas, o que obriga os Draags a declararem paz, reconhecerem a inteligência dos Oms e viverem em harmonia, igualdade e apoio mútuo com as suas tecnologias.

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Após todo o conflito violento, Laloux traz um final feliz para Planeta Fantástico, deixando diversos ensinamentos básicos embasados na empatia e no apoio mútuo – em especial nas ideias de que juntos somos mais fortes e que fortalecidos podemos mais –, em uma obra filosófica atemporal e vencedora do Grand Prix Spécial du Jury, no Festival de Cannes de 1973. A história se encerra com a criação de um novo planeta-satélite Om para Ygam: o planeta Terr.

A expressividade visual nos ambientes e nos corpos moldáveis dos Draags, as metáforas e os diálogos que questionam a inteligência humana sendo diluídos na rebelião tecnológica e política dos Oms são o que há de mais forte em Planeta Fantástico, tornando esse filme um marco da animação francesa, uma vez que indica uma solução para diversos problemas de ordem social e escancara o impacto da mensagem em trabalhos que aparentemente tanto se distanciam, para apontar algo tão próximo na própria sociedade. Após mergulhar nesse universo e viver um drama tão violento, sendo solucionado de uma forma tão simples, fica a reflexão: quem somos nós e como estamos agindo nesse Planeta Fantástico?

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