“Isso também passará”

Por Felipe Cruz

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A ação é uma escolha, de modo que o acúmulo de escolhas organiza-se no tempo e forma, aos poucos (o tempo é parcimonioso), o passado, o presente e o futuro: o senso de narrativa – aquela, que continuamos a contar para poder viver. Ocorre, no entanto, algo estranho; somos criados para valorar essas histórias (nossas, dos outros) por aquilo que elas guardam de atemporal – pois o que é bom e belo o é porque sempre o foi, e sempre o será. Idolatramos o tempo para exterminá-lo; o que Homero ou Sherazade narraram merece nossa admiração porque, a despeito dos milênios e da morte, a palavra permaneceu. Bastião da eternidade. Incorruptível. A mesma em sua essência. Talvez desta cultura tenham brotado algumas certezas, como a de que certas coisas “não envelhecem” porque são sempre “atuais”. Tudo se reduz ao presente, já que desprezamos a História e sua catalogação de circunstâncias.

Nos deparamos, ainda assim, com a linguagem do cinema e, a cada filme, somos expostos à duração dos eventos e ao desgaste de se ser no tempo (de que outra maneira seríamos?), aplicamos, contudo, nossa antiga lógica: a eternidade será possível, mas é necessário pagar pelo serviço do taxidermista; ele cobra caro, pois tende a ser muito requisitado e celebrado. Alguém, então, resiste. Insiste em lembrar que as coisas se transformam e dedica-se a registrar esse movimento; norteia-se por essa sensação – a de que também o registro se transformará. Tal é a postura de Nanni Moretti neste seu último filme, Minha mãe.

É possível ler algumas críticas que atribuem este filme a um desabafo autobiográfico do diretor, algo que parece inteiramente possível e relevante para o processo criativo que culminou na obra. Na impossibilidade de conversar intimamente com o próprio Moretti, porém, parece mais idôneo ater-se àquilo que foi dado a todos presenciar: a disposição de algumas cenas que foram escolhidas para compor uma duração. Neste sentido, é muito estimulante refletir sobre o que a figura central desta história tem a expressar sobre o passar dos instantes. O que sente uma mãe diante do tempo?

Pensamos em uma mãe como aquela que alcançou a continuidade; ela gerou. O corpo que cresceu dentro do seu é, também, ela – talvez esteja aí o horror na morte de um filho: morre a própria mãe. No caso de que tratamos agora, Moretti enquadra a morte “natural”: a da mãe, antes dos filhos, a morte do ser responsável pela vida. O filho morrerá um tanto também? Conhecemos e acompanhamos uma filha (e, de modo menos constante, ainda que igualmente intenso, um filho), ela é cineasta, interessa-se muito pela progressão de imagens, sua marcha aparentemente sempre adiante. É a visão, ou, antes, a previsão da morte que a desorganizará, pois sua mãe está morrendo e, estando a filha tão exposta ao fim, ela só é capaz de recorrer à nossa instintiva dependência da narrativa como modo de compreensão.

Moretti compreende bem este artifício e suas escolhas comprometem-se, plano após plano, com esta condição. Sua protagonista quer aquilo que irá permanecer, mas ela, que desde o começo suspeita que “todos os livros e horas de estudo” desaparecerão, paulatinamente corroídos pela indiferença do presente (observe-se o desinteresse de sua filha adolescente pelo latim, esta “língua morta”), desestrutura-se à constatação de que, talvez, suas mais enraizadas lembranças tenham o mesmo destino. Fustigada pela dimensão que esta premonição vai tomando, a filha/cineasta recorda e sonha durante toda a projeção, e Moretti, ele mesmo procurando pelo sentido que aquele conjunto deve assumir, filma as duas pulsões com o mesmo tom sereno e melancólico que utiliza para representar a “realidade” – são esforços emocionantes à luz de todas as suas fragilidades.

Assistimos e a intuição de que cada momento seja filho de um outro, ou de outros (um anterior e outro posterior) nos toma, como a enchente que silenciosamente torna submersa a cidade. As cicatrizes estão expostas em todos os personagens (o ex-marido, o último amor fracassado, o ator viciado em ficcionalizar) e objetos (a casa da mãe, um museu doloroso) e lembramos que o cinema é algo que macula, os olhos e a película. Tudo o que vive foi gerado e poderá gerar, é assim que morremos e é esta presença incorpórea que a câmera de Moretti captura. O tempo.

Somos, ao lado das certezas, uma pergunta. E já que tanto nos perguntamos onde irão repousar tantas memórias, tanto afeto, tantas lágrimas e tanto sangue, Minha mãe nos responde, enquanto antevemos o desconhecido: “No amanhã”.

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