Expect the unexpected

Por Álvaro André Zeini Cruz

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Creditado a Patrick Yau, Expect the Unexpected é um filme de Johnnie To. Tal afirmação não veio a mim desta forma, pronta ou certeira – e peço licença para colocar-me, por ora, em primeira pessoa –, já que durante o visionamento, pouco sabia da obra ou de seu realizador dito oficial. Entretanto, logo na primeira sequência de ação, veio-me uma inquietante sensação de déjà vu. Algumas sacudidas na caixola fizeram emergir desta módica cinefilia – com uma década recém-completada – um tiroteio que já pode ser considerado arquetípico nesse manancial que é a história do cinema: viria de Fogo contra fogo, de Michael Mann, essa minha impressão? Não, não era pelas imagens do cinema americano que eu encontraria essa vivência retomada. Talvez em algum conterrâneo de Yau… Talvez… Johnnie To.

Bingo! A última sequência de Drug War ressurgiu, iluminando estas sinapses. Meu déjà vu confirmou-se no primeiro Google; a produção do filme de Yau fora feita por To. Contudo, a internet – esta fofoqueira implacável – ia além: segundo ela, To havia sido uma espécie de ghost director de Yau, responsabilizando-se pela maior parcela do filme.

Por prudência, recorri a colegas interessados no cinema de Hong Kong, e que me confirmaram a veracidade da informação. A segurança trazida ao balizamento das linhas a seguir tornou-se secundária diante do alívio e da satisfação em constatar que minha impressão não se revelara um total despautério. Dito isso, sinto-me agora confortável para abandonar este caráter de relato.

Deixemos o entorno e passemos logo às entranhas: o cordão umbilical entre Expect the Unexpected e Drug War se dá nas formas externas do gênero – o filme de gângster. Mais especificamente, nos tiroteios em plena rua. O puxar dos gatilhos reconfigura a cidade num espaço-trincheira, emaranhado o bastante para que o jogo de polícia e ladrão se desenrole o máximo possível. Os mecanismos de ativação desses espaços, todavia, são opostos: em Drug War, a cidade está em consonância com a própria decupagem – é lugar concreto e intrincado, cuja geografia se desdobra exponencialmente, revelando novas possibilidades para o conflito. Em Expect the Unexpected, o oposto: a urbe é, na maioria do tempo, local impalpável, pois constantemente vista através de janelas ou vitrines – sempre embaçadas pela névoa e pela chuva, – tem suas formas e linhas sacrificadas, transformadas em fundos difusos que planificam ainda mais uma zona limitada desde as escolhas das locações (basta reparar a recorrência com que um mesmo McDonald’s aparece).

Em Expect the unexpected, Hong Kong só se transforma quando a violência irrompe na forma de algo corpóreo: seja através de uma bala – corpo que perfura outros corpos –, seja através dos veículos que se perseguem ou se chocam. A metrópole não altera seus tons, mas suas formas e texturas passam a ser delimitadas, visíveis, como se lembrassem a própria fragilidade, a ideia de que toda matéria pode ser violada.

Entre os desencontros amorosos de almas que tentam se conectar (o que abre possibilidade ao humor, diferente de Drug war), é a concretude da matéria que será colocada em xeque a cada lataria de carro atravessada, a cada corpo que cai inerte durante os embates que se iniciam sem sobreaviso nesse local do banal, da rotina, que é a cidade. Ao propor que se espere o inesperado, Expect de unexcpected é uma espécie de prequel e ao mesmo tempo antítese de Drug war: o primeiro parte da premissa de que se deve estar preparado para qualquer extraordinário, inclusive o fatal, afinal, somos carne e osso e, portanto, propensos a tombar por uma faísca, um atravessamento, uma bala. Nesse sentido, Drug War é mais pessimista: não há difusão ou dúvida; só há concreto e a certeza de que, uma hora ou outra, os corpos irão ao chão. Mais do que esperado.

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