Estrela da morte

Por Álvaro André Zeini Cruz

hansolo

Aos sete, ganhei uma Estrela da Morte de brinquedo. Foi minha introdução ao universo de Guerra nas estrelas – hoje apenas Star Wars. Sem ter visto os filmes, desconhecia, portanto, os personagens que os minúsculos bonecos a bordo da embarcação representavam. Não que isso tenha sido impedimento para as inúmeras viagens intergalácticas realizadas pela sala onde eu e minha irmã brincávamos (afinal, o que importava era ter uma espaçonave para lá de maneira em mãos). Jornadas tão insólitas que os bonecos – cujos tamanhos correspondiam à ponta de um dedo –, pouco a pouco, foram desaparecendo, perdidos sabe-se lá em qual curva, combate ou acidente retumbante (embora desconfie que o culpado seja o aspirador de pó). Luke, Leia, Han Solo… todos se foram. A Estrela da Morte, creio, existe ainda em algum armário (e, se minha crença estiver correta, espero que caia nas mãos de minha sobrinha em alguns anos).

Aos treze ou catorze (no início da cinefilia), cansado da prateleira de lançamentos da locadora, fui aos catálogos e dei de cara com O Retorno de Jedi. Trouxe para casa, dando continuidade à mania de subverter a ordem das narrativas (Harry Potter, por exemplo, comecei a ler por O prisioneiro de Azkaban). Depois vieram os demais (sim, estou entre os que acham O império contra-ataca o auge da franquia). Aos quinze (ou dezesseis), me apresentei tocando o tema composto por John Williams no piano (instrumento que, aliás, foi uma das teimosias mais inúteis da minha vida, no sentido de que o talento era escasso). Há dez anos, fui sozinho à estreia de A vingança dos Sith, coincidentemente uma das últimas vezes que botei os pés na velha sala embolorada do Bauru Shopping. Revi os filmes algumas vezes de lá para cá, não tanto quanto os fãs mais árduos da série provavelmente reveem, mas o suficiente para mantê-la carinhosa na memória.

Enfim, essa história toda para chegar a O despertar da força, retomada da franquia, capitaneada por J. J. Abrams, cineasta sobre o qual, para mim, pairava ainda certa incerteza. Sentimento que, pensei, fosse ser sanado por esse sétimo episódio de Star Wars, e que, para minha angústia, acabou se acentuando ao término do filme. Saí certo de alguns pontos: o novo trio protagonista tem a potência do original (algo que não se repete na saga dos anos 1990, apesar dos esforços de Ewan McGreggor e Natalie Portman) e Abrams teve um enorme respeito pelo universo (tal qual teve por Star Trek). Mas respeito não faz cinema. Abrams tinha que amar aquela série e eu, inseguro se tinha sido ou não arrebatado, tinha dúvidas se ele a amava. A única incerteza que não me perseguia era o fato contundente do filme: Han Solo havia morrido. Dormi inquieto.

Pulei cedo no dia seguinte e, para minha surpresa, com os acordes de John Williams na cabeça. Já as imagens que impregnavam estas sinapses não eram tão generalistas, mas bem específicas. Eram os planos da morte: Han Solo/Harrison Ford – que, dias antes, eu havia visto jovial numa reprise no Space –, diante do filho e arquivilão Kylo Ren (Adam Driver, numa escalação inequívoca), ambos sobre a passarela análoga a de O império contra-ataca. As rugas e os cabelos brancos de Ford contrapostos ao rosto desproporcional de Driver. O plongée ressaltando a altura. A névoa semi-velando os corpos. O detalhe das mãos do pai e do filho sobre o sabre de luz. O laser vermelho atravessando o peito. Um corpo que cai. Não um corpo qualquer. O corpo de Han Solo.

Abrams violou de maneira irreversível um happy end de vinte e dois anos, ato incabível para quem sente pura idolatria – a reverência, por si só, pressupõe certa distância; expele o contato. Fosse ele unicamente subordinado a esse tipo de estima, teria feito um filme insípido, incapaz de conter sua inscrição e, consequentemente, inapto a essa manobra de, pela potência, retardar a perplexidade (que, a mim, veio só no dia seguinte). Extinguir o personagem que revelou Harrison Ford demanda bravura – é preciso conquistar aquele universo, torná-lo seu, destemor capaz apenas a um cineasta com sentimentos maiores, mais nobres. Abrams ama Star Wars a ponto de tornar etérea uma das mais irrefutáveis mumificações da história da nova hollywood e do cinema. Essa ilusão–personagem, persistente por décadas, impregnada nas retinas e nas memórias, é aniquilada num piscar de olhos. O fascínio da jornada dá lugar ao luto e à barganha: já que esse ser quimérico persistiu por tanto tempo – inclusive em nosso imaginário –, por que não estender sua existência por mais dois filmes? A dor da morte de uma figura de tal dimensão é tal qual a de um velho conhecido, pois remexe em antigas reminiscências e aflora a consciência de que elas também são a própria morte. A mim, rememora o André (na infância, chamavam-me pelo segundo nome) que, aos sete, brincava com a Estrela da Morte; bem como o Álvaro carregado de VHS com capas desbotadas, aos treze – ambos hoje impalpáveis, mas pulsantes nesta massa cinzenta que um dia será desativada. A verdade cinematográfica é inconveniente: qualquer que seja a ilusão ou inversão temporal proposta na tela, há como matéria-prima a realidade e o tempo cronológico. A morte de Han Solo significou que Ford, hoje aos 73, não é mais um garotão e será, um dia, não mais corpo, mas apenas imagem, assim como Gene Kelly, Audrey Hepburn, Cary Grant, Judy Garland e tantos outros. A crueldade do cinema está em brincar com nosso maior temor: a finitude.

O despertar da força trouxe a mim o alívio da imagem encadeado à consciência implacável de que os instantes e os corpos se esvaem. A perplexidade só surgiu na manhã seguinte porque, ao término da sessão, estava anestesiado. Se perdi Han Solo, o bonequinho, por descuido, Abrams o fez de forma proposital e cirúrgica; foi senhor da vida e da morte. A força despertada foi uma certeza lancinante: dentro ou fora das telas, somos todos estrelas da morte.