Entulho e o tempo da lembrança

Por Juliana Maués

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O espaço congestionado e a predominância de planos próximos em “Entulho”, curta roteirizado e dirigido por Mabel Lopes (Campinas, 2014), são a tradução visual óbvia do principal tema tratado no filme. A trama nos conta de Gustavo, um acumulador compulsivo – cuja casa, logo, é sinônimo de claustrofobia -, e se passa no dia em que, frente à ameaça de despejo, ele precisa desfazer-se dos entulhos acumulados ao longo de uma vida. Desfazer-se, porém, implica rever – e rever, lembrar.

Sob o tema mais aparente dos entulhos, jaz outro: o da lembrança. É aí que, de fato, a obra estabelece sua arena – e sai dela vitoriosa. Dentre os vários modos em que isso é apresentado, talvez o mais bonito seja justamente o mais singelo: o jeito como se utilizam os temas sonoros – não apenas o leitmotif criado pelo som da caixinha de música que surge em vários momentos, mas também o som menos elaborado produzido pela água em ebulição numa panela, pelo manusear de um papel de bala, pela ruptura de uma folha de isopor.  A utilização de primeiríssimos planos nestas cenas aproxima a tal ponto o objeto de modo a criar abstrações e, assim, agregar ainda mais atenção ao sonoro. A luminosidade da fotografia que, em alguns momentos, parece artificial em demasia e não exatamente num bom sentido, dá aqui a sua melhor contribuição.

A tradução visual da lembrança também merece destaque. Ela se materializa na figura de Andressa, a mulher amada, a mulher perdida. É louvável o modo como a existência da personagem é tratada nos seus dois extremos (presença/ausência), sem deixar margens para elucubrações do tipo tão em voga entre quem busca um efeito fácil, no qual não seja necessário lidar com as consequências dramáticas da escolha e que o questionamento “aconteceu mesmo ou foi tudo ilusão?” sintetiza bem. Nesse sentido, embora pareça o contrário, optar por um final em aberto, em que a responsabilidade de interpretação e definição dos fatos é deixada a encargo do espectador, muitas vezes não passa de um atalho para dar pretensa – e, não raro, inexistente – profundidade à obra. O enfrentamento dramático requer, e geralmente pode, mais – e isso já nos mostrou Preminger em Bunny Lake (Bunny Lake desapareceu, 1965), para citar apenas um exemplo, filme que poderia escolher a dúvida como caminho cômodo, mas cuja solidez dramática não torna interessante esta escolha e tampouco necessita dela como ponto de fuga, além, é claro, de todos os méritos da cena da resolução em si que não cabe detalhar aqui (um conselho: assista). Em “Entulho”, Andressa ou está ou não está. Não sobram perguntas sobre sua real existência. Nas cenas em que ela está presente, realmente acreditamos na sua materialidade. Quando deixa de aparecer, sabemos que é porque ela não mais existe.

Se os entulhos que Gustavo acumula, muito mais do que os objetos que lhe tomam quase todo o espaço da casa, são as lembranças que não lhe deixam, um paralelo interessante, por fim, está no quarto do casal, único cômodo não tomado pelas quinquilharias. Mais uma vez, a chave está nas lembranças: não há entulhos porque não há lembranças e não as há porque ali lhe falta o seu agente; o tempo. Ele fez a sua obra no restante da casa, tornando tudo em lembrança – e fazendo do apego a ela um motivo para guardar tudo –, deste quarto, todavia, ele fora expulso. Ali, ele não pôde macular com a sua passagem. O cômodo que, à primeira vista, é o mais próximo da normalidade de toda a casa, na verdade, é onde reside o cerne do problema – tanto que é ao tentar adentrar ali que Gustavo explode. Em sua ausência de lembranças, pode parecer uma ode ao eterno, mas o que vive ali, de fato, é a negação do tempo.

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