Deu a louca no mundo (Stanley Kramer, 1963)

Por Leandro Cesar Caraça

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O cinema de grande entretenimento da atual Hollywood encontra-se atracado nas franquias de produtos pré-estabelecidos. Livros, games, quadrinhos. Reciclagem pura e simples como vimos este ano: Jurassic World – O Mundo dos Dinossauros; Mad Max – Estrada da Fúria; Star Wars – O Despertar da Força. Inclusive os cineastas mais barulhentos (Michael Bay, Rolland Emmerich, Zack Snyder) estão presos em fórmulas que eles ajudaram a criar. Dirão que isso tudo é a elevação máxima do tipo de cinema que George Lucas e Steven Spielberg ajudaram a criar nos anos 1970. Uma desvirtuação do que a Nova Hollywood produzia na época. Como se o espectador médio já não tivesse preferência por obras de puro escapismo como os filmes de Burt Reynolds e superproduções repletas de exageros como Inferno na Torre.

Voltando pouco mais de uma década no tempo, a Hollywood clássica se encontrava nos últimos estágios de uma transformação. Os jovens rebeldes pedem passagem à força, enquanto os veteranos continuam tentando entender o que significa tudo aquilo. Essa velha-guarda já combatia um grande inimigo, que era a televisão. Invenções como o Technicolor, o Cinemascope, o 3D, chegaram para animar o público e tirá-lo de frente da telinha pequena no conforto dos seus lares. Esse embate acirrado teria uma vitória e uma derrota para cada um dos lados em 1963. A superprodução épica-histórica-bíblica chegaria ao limite com o fracasso monumental (e mais do que esperado) de Cleópatra, de Joseph L. Mankiewicz, o único diretor creditado. Outro veterano resolveria apostar no gênero cômico, criando um espetáculo inflado em todos os sentidos. Do número de atores em cena, na quantidade de gags visuais por minutos, na destruição promovida. O exagero de Deu a Louca no Mundo conquistou plateias do mundo inteiro.

Stanley Kramer, diretor e produtor, considerado como uma espécie de consciência moral de Hollywood devido aos seus filmes sobre temas controversos (holocausto, racismo, corrida nuclear) resolveu se voltar para a comédia. Muitos dirão que ele pretendeu mostrar até que ponto os seres humanos chegavam por causa da ganância. Ele não poupou esforços ao recrutar famosos comediantes da TV e do cinema e colocá-los numa corrida maluca em busca de um prêmio de 350 mil dólares. Com receio da duração do filme, a distribuidora United Artists fez com que tivesse diversos cortes ao longo de sua passagem pelos cinemas. Ao longo dos anos, novas tentativas de montagem pioraram a situação. Ainda que nada chegue perto da versão itinerante que bateu nos 205 minutos, com direito até a pausa estratégica no meio da projeção. Qualquer uma das versões servirá para mostrar um número maior ou menor de caos, piadas e correria. Kramer sempre pesou um pouco a mão ao mandar as mensagens nos filmes, talvez porque fosse melhor produtor do que diretor (mesmo mal que acometia Alan J. Pakula). Comédia não parecia ser o gênero mais apropriado para ele. A coisa deu certo no final porque venceu pelo barulho.

Venceu a tal ponto que Deu a Louca no Mundo tornou-se um estilo próprio de comédia. Mesmo que o filme deva muito às screwball comedies do período clássico de Hollywood e também a comediantes como Buster Keaton e Os Três Patetas (que fazem pontas aqui), a massa fermentada que Stanley Kramer levou ao forno inspirou um grande número de cineastas no futuro. Blake Edwards, Peter Bogdanovich, Steven Spielberg e John Landis foram os nomes mais distintos a levar adiante a herança deixada por Kramer. E mesmo que Peter Bogdanovich tenha obviamente mais predileção pelas comédias de Hawks e Lubitsch, não era mais possível escapar da influência do arrasa-quarteirão que foi Deu a Louca no Mundo. Em sua defesa, podemos dizer que a perseguição final de Essa Pequena é uma Parada (1972) tem muito mais graça e foco do que qualquer baderna provocada pelos incontáveis comediantes sob as ordens de Stanley Kramer. Não deixa de ser conclusivo o fato de que foi Spencer Tracy, o único ator não cômico do elenco, quem conseguiu se destacar individualmente. Sendo também o melhor ator em cena, soube dosar seu personagem, o policial veterano que se corrompe e tentar pegar para si todo o dinheiro. Enquanto todos os outros são meros cartoons, Tracy convence em meio à tragédia e ao ridículo de seu personagem.

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