Depois daquela viagem

Por Marcella Grecco

viagem

Outdoors coloridos e milhares de luzes piscantes; impossível distinguir entre o dia e a noite. Na iluminada Tóquio, Oscar (Nathaniel Brown) usa DMT jogado em seu sofá e olha pela varanda o recorte do mundo que lhe foi cedido: um gigantesco letreiro com a palavra “Enter” que deixa seu ínfimo apartamento colorido ora de vermelho, ora de verde. O toque do celular atrapalha a viagem e, ainda sob efeito do DMT, Oscar tem que fazer uma entrega.

Ao chegar ao local, descobre ser uma armadilha e é morto pela polícia japonesa. Assim termina a vida de um estadunidense que perdeu os pais ainda jovem e foi morar em Tóquio com a irmã. Não, eu não contei o filme inteiro. Isso é só o começo e, pode acreditar, não se trata de um filme sobre junkies e traficantes. Viagem Alucinante (Enter the Void, França/Alemanha/Itália/Canadá, 2009) é um filme de Gaspar Noé – aquele de Irreversível (2002) – e é preciso assistir a ele com muito cuidado. A narrativa não segue um fluxo linear; começa com a morte de Oscar, volta para os acontecimentos anteriores ao ocorrido, passa novamente pela morte de Oscar e daí continua. Nesse trânsito, é fundamental ter atenção ao ponto de vista da câmera.

No ínicio, vemos tudo através da perspectiva de Oscar, como se o filme estivesse em primeira pessoa – artifício usado recentemente em Birdman (2014). Depois de sua morte, continuamos em uma visão subjetiva mas passamos a ver os acontecimentos sempre um passo atrás do protagonista. Grudados em sua nuca – seu rosto jamais aparece – ficamos a par dos acontecimentos anteriores ao assassinato através do ponto de vista do espírito de Oscar, que se observa por meio de flashbacks. Desse ponto de vista conhecemos, então, um pouco da história de Oscar e somos guiados novamente até a sua morte.

A narrativa então continua, agora, não mais com a nuca do personagem na frente. O ponto de vista de Oscar é o nosso também, que, morto, observa tudo, onipresente. Junto a ele, viajamos, cruzando concretos e corpos. O espectador que não se atenta a essas mudanças de ponto de vista pode se sentir confuso, mas a dica para a fruição do filme é dada logo no ínicio quando Alex (Cyril Roy), um amigo, dá à Oscar o “Livro dos Mortos” e diz para ele que a maior viagem de sua vida aconteceria quando morresse e não através das drogas.

Em resposta à curiosidade de Oscar – que promete um dia ler -, Alex dá um rápido resumo e diz que, de acordo com o livro, quando morremos vemos a nossa história em flashbacks. Passada a memória da morte, o espírito preso ao mundo físico, aos poucos percebe que não pode conversar com ninguém nem interferir na vida das pessoas que o rodeiam. A “bad trip”, como Alex intitula, só termina quando, finalmente, o espírito desiste de viver nesse mundo e aceita uma reencarnação. Para tanto, deve-se escolher um ventre e uma nova vida. É preciso observar as mulheres que têm os ventres iluminados para poder fazer uma escolha e, segundo Alex, o “Livro dos Mortos” diz que fazemos isso incessantemente, como em um movimento circular sem fim.

O filme é uma incrível experiência sensorial; uma viagem alucinante até a reencarnação de Oscar. A fotografia trabalha com jogos de luzes e objetos circulares são constantemente o meio de passagem de uma sequência a outra. A narrativa não poderia terminar senão com o fechamento de um ciclo, quando Oscar escolhe o ventre de sua irmã para reencarnar. Da luz branca que preenche a tela nos minutos finais, vemos com dificuldade um cordão umbilical ser cortado. Já o choro do bebê, alto e estridente, deixa claro para nós que um novo círculo tem início ao término dessa longa viagem.

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