Da incomunicabilidade de uma família austríaca

Por Marcella Grecco

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Lukas (Lukas Schwarz) e Elias (Elias Schwarz) brincam de esconde-esconde na floresta quando escutam o barulho de uma buzina. Ansiosos pela enfim chegada da mãe (Susanne Wuest), os meninos correm para recepcioná-la. Ao chegarem em seu quarto, encontram-na irreconhecível. Não por acaso: a mãe acabara de passar por uma cirurgia plástica e apresenta o rosto coberto por gazes, com exceção da boca e dos olhos.

A família mora em uma casa isolada no interior da Áustria. Os meninos parecem passar bastante tempo sozinhos e os pais são divorciados. Por conta da cirurgia no rosto, as persianas das janelas devem permanecer fechadas, o que os deixa ainda mais isolados, até mesmo da natureza que os rodeia e dos raios de sol. Com o passar dos dias, Lukas e Elias começam a achar que a mãe está diferente. Ela quase não lhes dá atenção e, quando o faz, é ríspida e exigente. Eles tentam contato e sempre são repreendidos. A mãe, que não recebe um nome, chega até mesmo a ser agressiva diversas vezes. Além disso, ela passa grande parte do tempo fechada em seu quarto, proibindo qualquer tipo de visita.

De forma a não precisar falar com os filhos, a mãe encomenda pizza congelada para mais de um ano. Mesmo sabendo que os meninos adoram animais e insetos – eles colecionam grandes baratas pretas -, a mãe os proíbe de trazer qualquer tipo de vida para dentro da residência. Após acharem um gatinho assustado na floresta e de o levarem para casa, Lukas e Elias o encontram morto no porão. O assassinato do gatinho é o estopim para uma guerra. Lukas e Elias estão convencidos de aquela não é a sua mãe. O rosto coberto por gazes desperta curiosidade; sua mãe nunca agiria de tal forma. “Cadê a minha mãe?”, eles passam a perguntar. A mulher pouco dá atenção e, quando o faz, grita “Eu sou a sua mãe!”. “Pois bem, se você é a mamãe terá que provar”, é o que pensam os garotos quando, certa noite, amarram os pés e as mãos da mulher na cama.

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Elias e Lukas a submetem a um terrível interrogatório, ou ela prova que é a mãe ou ela diz quem ela é. Somente assim a mulher conseguiria liberdade. “Cadê a minha mãe?”, “Eu sou a sua mãe!”. Os meninos investigam o rosto então sem as gazes em busca de pistas. Algumas das marcas de nascença foram removidas quando da cirurgia plástica e o rosto está diferente, assim como a atitute. Com o intuito de descobrirem quem é a impostora, Lukas e Elias chegam a queimar o rosto da mulher, a grudar-lhe a boca com uma cola super poderosa e a mantê-la presa na cama sem comer e suja de urina por vários dias. Enfim, não convencidos, irritados e já cansados, eles colocam fogo na casa e a deixam morrer queimada (!). Antes de agonizar em chamas, a mulher suplica para ser solta e insiste dizendo que é a mãe deles. Ela fala para Elias que não é culpa dele a morte de Lukas e que eles poderiam voltar a fingir que Lukas ainda estava vivo. É então que a história ganha outra perspectiva, mas fomos pegos de surpresa e o enredo está para terminar.

Boa noite, mamãe (Goodnight Mommy, Áustria, 2014) é o longa de estreia da dupla de diretores e também roteiristas Severin Fiala e Veronika Franz. Durante todo o suspense, recebemos pistas de que Lukas está morto. A mãe nunca se dirige a ele, há somente uma escova de dentes no banheiro dos meninos e apenas a Elias ela dá um copo de suco no início do filme, por exemplo; ninguém conversa com Lukas a não ser Elias. Apesar de todas essas pistas acreditamos na história dos meninos, por menos plausível que seja.

O fato de Elias e Lukas serem irmãos na vida real e de serem gêmeos – inclusive, eles fazem questão de usar as mesmas roupas e de ter o mesmo corte de cabelo – contribui muito para a manutenção do suspense, já que não dá para saber ao certo com quem a mãe está falando, a não ser que prestemos bastante atenção na posição e no deslocar dos garotos em cena. A cirurgia plástica e o rosto coberto por gazes durante quase todo o filme são também outros fatores que nos fazer questionar quem está falando a verdade.

O fato é que ambos, tanto Elias quanto a sua mãe, estão machucados e traumatizados pela morte de Lukas. A mulher não sabe como lidar com a perda de um filho e se fecha em seu mundo, evitando contato com o filho que sobreviveu. Quando este menciona o irmão e, sobretudo, quando fala com ele, a mãe fica louca de raiva e de tristeza. Ela não quer escutar falar do filho que morrera e não quer que Elias fique vendo e conversando com o irmão morto, motivo pelo qual age de forma desmedida muitas vezes durante a narrativa, levando o garoto a imaginar que aquela não era sua mãe.

É da incomunicabilidade dessa família austríaca – temática, aliás, muito cara à cinematografia desse país, vide Michael Haneke, que a explora em praticamente, senão em todos, os seus filmes – que vem o equívoco; o distúrbio. Mãe e filho sozinhos em uma casa isolada, ambos machucados e cada um na sua angústia. O filho teve de torturar a mãe para que ela provasse ser quem dizia ser e, ainda assim, ela não o fez com veemência; não o convenceu.

Boa noite, mamãe é um filme que dá para ser visto de duas maneiras; três, na realidade. Pelo ponto de vista da mãe, pelo ponto de vista de Elias e pelo ponto de vista de ambos. Muito bem dirigido e escrito, a narrativa faz sentido independentemente do prisma escolhido, no entanto, por não termos outros personagens e pela história se passar somente dentro da casa da família, tendemos a oscilar entre o lado da mãe e o lado de Elias. Esse fluxo nos deixa atordoados e somos levados pelo suspense até o desfecho, quando a mulher morre em chamas instantes depois de gritar “Eu sou a sua mãe!”.

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