Children

Por Álvaro André Zeini Cruz

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Diante da recente (e insistente) prática mercadológica (e mercantilista) de dividir best-sellers ao meio em suas respectivas adaptações cinematográficas, talvez o único cineasta a usar tal artifício a seu favor tenha sido o britânico David Yates, da série Harry Potter. Isso ocorre sobretudo na primeira parte de As relíquias da morte, último título da franquia, em que Yates concebe a jornada do herói da forma mais crua e direta possível – a contraposição entre o trio protagonista e o mundo é literal e está impregnada nas várias imagens em que os corpos diminutos atravessam as mais austeras paisagens, que vão de florestas sinistras a cânions desoladores.

Yates realizou assim o mais intrépido filme de uma série cujo expoente de maior interesse era, até então, o episódio dirigido por Cuarón, que, por sua vez, incluiu tons mais sombrios às aventuras de Harry, Rony e Hermione. Yates e o roteirista Steve Kloves tiveram, entretanto, uma compreensão ímpar do universo criado e manipulado por J. K. Rowling, superando inclusive a autora primordial; tal entendimento se reflete mais especificamente em uma sequência, mas, querendo-se ir logo ao cerne da questão, pode-se delimitá-lo a uma cena.

Na trama, Rony acabara de partir enciumado após flagrar Hermione aparando as madeixas rebeldes de Harry, deixando assim os dois a sós. A partida de Rony permite que a relação, sempre fraternal nos livros, e até agora nos filmes, seja então colocada à prova pelo momento em que ambos se encontram na jornada – solitários, exaustos e sem a mínima ideia de como prosseguirem no combate ao arqui-inimigo, Lorde Voldemort. Em meio à guerra deflagrada no mundo bruxo, Harry sente-se oprimido em seu papel de figura messiânica que titubeia diante das escolhas necessárias para que se vença o mal. Isso se traduz nas imagens, sobretudo aquelas em que o solo rochoso o espreme contra um céu de nuvens carregadas, entrecortado por um fiapo de luminosidade cor de fogo. Esse fio de luz, clareando minimamente um mundo cada vez mais imerso em trevas, tem como desdobramento espacial mais próximo a Harry, a barraca de camping, de onde soa, longínqua, “O Children” na voz de Nick Cave.

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Harry então adentra esse ponto de conforto, onde Hermione amarga, tristonha, a partida de Rony. Ele senta e a encara longamente, enquanto ela, a princípio, sequer dá atenção para sua chegada. O olhar da garota só é atraído quando Harry, a sua frente, lhe estende a mão – e só então nota-se que não é um olhar qualquer, mas um olhar umedecido pelas lágrimas, assolado por sentimentos muito parecidos (talvez até os mesmos) que assombram Harry: como será o futuro? Haverá um futuro?

O pronto reconhecimento entre os olhares abre espaço para um outro toque: Harry retira o colar usado por Hermione (uma horcruxe, espécie de objeto maligno na trama) e, em seguida, a tira para dançar no centro da cabana. Montagem e encenação então se alinham nesta construção cênica mais potente do que qualquer Avadra Kedrava disparado em toda a história: esse momento fugidio, em que os corpos e almas daqueles adolescentes cheios de dúvidas se tocam, se amam e se reconfortam.

Pois, se há uma temática indiscutível, abandonada por Hollywood desde John Hughes e retomada por Harry Potter, é a da adolescência. Ela emana do universo de Rowling, mas, curiosamente, só encontra uma síntese pujante nesta cena original, sequer mencionada no derradeiro livro. Suspende-se a jornada do herói para que se viva esse momento da dança – e apenas ele! – como representação pura e simples da adolescência, captada sem grande rebuscamento formal, mas através de uma decupagem certeira no que realmente importa: a completude das ações e reações através dos raccords de olhar; a alternância entre planos mais abertos e mais próximos, colocando em cena a expressão dos rostos e dos corpos (inclui-se, aí, a sexualidade).

Quando a dança finda, Harry encara Hermione; ela desvia o olhar, dá um suspiro exausto de quem foi trazida de volta à realidade e sai, deixando Harry sozinho. Algumas cenas adiante, eles conversam sobre uma pista descoberta pelo bruxo, capaz de fazer a jornada voltar a fluir. Contudo, antes de retornarem ao enfrentamento do mundo, Hermione encerra esse adendo particular na relação dos dois ao acariciar-lhe a franja e pontuar: “nunca mais me deixe cortar seu cabelo”. Encerra-se assim um desdobramento não incluído na história original. Yates e Kloves, de uma só vez, desbancam a teoria de que as obras originais são intocáveis, aprofundam o vínculo entre os personagens e, principalmente, penetram as vértebras e cartilagens a fim de exporem a medula da obra, o tecido vital que a faz existir. E, se a canção de Cave repete “Crianças, alegrai-vos, alegrai-vos”, a dança surge como um conselho tomado, permitindo que a adolescência desponte em sua forma mais plena, leve, alegre, implacável. E, não à toa, da forma mais bela em toda a série.

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