A Visita

Por Álvaro André Zeini Cruz

Captura de Tela 2015-12-21 às 18.50.50

Há cineastas que veem e cineastas que miram, lembra Luiz Carlos Oliveira Jr. ao retomar a divisão proposta por Jean-Luc Godard (repartimento não muito distante do baziniano entre diretores que creem na realidade e que creem na imagem). A visita (The visit, EUA, 2015), de M. Night Shyamalan, é protagonizado por esses dois expoentes, que se tangenciam e se completam através de uma crença – a de que a imagem cinematográfica é uma potência restauradora.

Becca (Olivia DeJonge) acredita nisso piamente – tanto que quer transformar a visita aos avós maternos num filme, cujo propósito maior é a reconciliação familiar. Contudo, do alto de seus quinze anos e armada com um vocábulo cinematográfico primordial – mise en scène –, ela mira quase que com a trena em mãos e, pobrezinha, esquece-se que é personagem de um filme de Shyamalan, cujo mundo não se restringe ao quadro. Ou seja, por mais que a pontaria de Becca seja das boas, há sempre o extra-quadro e, nele, um mundo que se desdobra em mistérios que podem ou não adentrar o recorte da moldura.

Becca é instrumento da meticulosidade de Shyamalan inserido na diegese; é através do olhar e das mãos dela que o cineasta compõe enquadramentos mais elaborados sem, entretanto, quebrar a verossimilhança do found-footage. É por ela que surgem as molduras dadas pela mobília da casa (as arestas das cabeceiras das camas), as paisagens inóspitas preenchidas por árvores aterradoras, bem como a janela indiscreta por onde vemos a vovozinha e o vovozinho, que não são o que parecem. Shyamalan, no entanto, é um exímio captador das mais densas emoções, aquelas que despontam na tela e que, retrabalhadas pela sensibilidade apurada do olhar, transcendem o belo – esse ideal corpóreo – para atingirem o sublime, força ligada ao espírito, recorrente em seus filmes: quando as mãos se encontram no plano detalhe sublinhado pelo slow motion em A vila, por exemplo, o gesto de afeto em meio ao horror não é um mero encontro entre corpos, mas entre almas.

Em entrevista recente à Folha, o próprio Shyamalan reiterou esse lado emocional: “[…] eu estava ocupado sendo sentimental. […] Para mim, ‘E.T.’ sempre foi o Santo Graal. Eu tinha 13 anos quando vi aquele filme e chorei no cinema. […] A era em que eu cresci foi um tempo caloroso, sentimental”. Esse Shyamalan de 13 anos, cujo olhar sobre o mundo é um vivaz equilíbrio entre fascínio, curiosidade e temor, está impregnado em toda sua filmografia e se corporifica aqui em Tyler, irmão caçula de Becca que sempre desafia suas orientações em prol de uma flexibilidade para com o captar o mundo – se Becca aponta a câmera desde o princípio como uma arma, Tyler primeiro vê para, se necessário, ajustar a mira.

É como se dá um dos mais desconcertantes momentos do filme: Tyler questiona a irmã sobre as lembranças que esta tem do pai, figura cuja ausência lhes é traumática. Becca, que, por problemas com a autoimagem, só consegue se ver no vídeo, mediada pelo olhar da câmera (proteção inexistente quando se vê, por exemplo, num espelho), é violada pela orquestração da máquina colocada sob os olhos livres de Tyler: ao perceber os olhos da irmã prestes a lacrimejarem sob a lembrança do abandono paterno, Tyler dispensa qualquer devoção às sutilezas da linguagem apregoadas por Becca e não titubeia em acionar o zoom, que aproxima indiscriminadamente aquele instante singular da emoção e desnuda a personagem que se esconde por trás da câmera. O conflito de Becca emerge: ela crê na potência das imagens, mas não compreende que a imagem é uma extensão dela própria. Como diretora, cai numa falácia: compreende que precisa colocar sua visão do mundo, mas ignora a incompreensão que tem sobre o objeto principal – o mundo em si. Becca tem, portanto, uma percepção parcial – a câmera é uma arma. Tyler, sob a inocência da infância, atinge um entendimento mais completo: a câmera é a única arma que atinge ambos os lados – os que estão diante da lente e os que estão atrás. É improvável um filme não engolir um pouco da alma daquele que o faz; Shyamalan é exemplo contundente disso e é sobre isso que busca falar.

A imagem e sua ausência sempre estiveram em xeque para Shyamalan. Se em A vila, a cegueira era a salvação (afinal, o horror era só mais um desconhecimento entre tantos outros), em Fim dos tempos era a morte (a tragédia disseminada por algo incorpóreo, o vento). Em A visita, a imagem cinematográfica, sua fluição e fruição, são ferramentas de resgate e redenção: as peripécias do horror têm maior clareza quando revistas na tela, a webcam é instrumento da revelação do mistério e, por fim, o espelho nas mãos daquela que não o suportava, torna-se arma fatal. A juventude contraposta às marcas do horror – gênero-chave de Shyamalan, que não titubeia em expandi-lo nos mais variados sentidos – enfrenta a morte com o auxílio da câmera, máquina cuja matéria-prima e produto final convergem na pulsação, na presença, na vida.

Cineasta moral que é, Shyamalan fragmenta ou vela parcialmente o duelo final entre os olhares elucidados e os perturbados pela loucura. Ao término, a imagem, de fato, restaura: a mãe finalmente se abre sobre as diversas rupturas familiares que permeiam o passado. O filme, por fim, restaura o que parecia irreparável: a perda paterna é contornada pelos vídeos de outrora, registros de uma família composta por pai, mãe e filhos. Família cuja morte é irreversível, mas que tem a dor tolerável graças à vida enclausurada nas fitas, nos registros de imagens e sons capazes de serem revisitados. Shyamalan joga as crianças numa jornada extenuante e mortal de reencontro familiar para trazer à tona uma compreensão: a vida segue e sempre seguirá implacável, e nem mesmo o cinema pode aplacá-la. Contudo, ele consegue suspendê-la parcialmente ao ressarcir o passado, trazer os mortos à vida, ainda que de forma ilusória. Eis porque é uma arte que transcende o belo: pois dribla a dor e reanima sentimentos. Dialoga diretamente com outro registro – as lembranças, pedaços de vida, que, como filmes, estão guardados dentro de nós, prontos a emergirem numa fala, num gesto, num olhar como o de Becca, captado pelo zoom impecável de Tyler.

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