por Álvaro André Zeini Cruz

Cara Senhora Roitman,
Lastimo que esta carta não a tenha encontrado em vida, mas insisto em escrevê-la, pressupondo que, de alguma forma, a posição de interlocutor idealizado se entranhe a sua condição ficcional, configurando este encontro no campo enveredado das ficções. Aproveito para pedir licença para tratá-la por você, pois, conhecendo-a de outras encarnações, sinto que tenho lastro e intimidade para tanto. Aliás, me desculpe de antemão pelo uso desse vocábulo inescapável, transmutado da prepotência ao bordão roto. Fique descansada; prometo que a palavra solta naquele famigerado embate com a mãe de Maria de Fátima não se repetirá nas próximas linhas.
Como se chama a moça mesmo? Ah, sim, Raquel, protagonista da novela de Odete Roitman. Dizem as más línguas, escanteada após dar com a língua nos dentes, criticando os tombos reiterados da personagem. Ora, Odete, você bem sabe das línguas ferinas que circulam por este campo terreno, afinal, até dias atrás, era uma delas, ocupadíssima em plantar intrigas aqui e ali, exercitando o poder sobre as vidas subalternizadas. Um hobby, por sinal, brasileiríssimo, colonial, escamoteado no dia a dia das pseudo-intimidades, ilusionadas pelas convivências fisicamente próximas. Foi essa proximidade que permitiu a você, Odete, enredar Nise, Ana Clara e Maria de Fátima, cooptando as diferentes nuances entre a necessidade, o sonho e a ambição, enredando em sua trama três mulheres negras. A quarta, a heroína pensada para ser a típica brasileira que não teme a luta, apesar da garra de sua intérprete, figurou lutando nas bordas, só voltando ao centro da trama quando escorregava, de novo, ao fundo do poço. Marginalizada por (ou em prol de) Odete Roitman (mas isso é assunto para outra carta).
A arquiteta desta sua nova versão tem razão, Odete: você foi protagonista. Dizem até que numa concepção mais humana, mas eu ousaria dizer que a questão é menos a humanidade e mais a contemporaneidade. Convenhamos, Odete: se sua versão anterior soava como uma peça do Salão dos Cristais de Versailles — deslocada para tilintar fora do tom dessa terra de pandeiros e cuícas —, no tratamento Bloch, você parece uma figura palpável, dessas que compõem a mão invisível do mercado enquanto vociferam discursos que sequestram nacos da vida alheia em prol de dinheiro em dados. Meritocracia, é o que gente como você diz em palestras para outras pessoas vestidas como você. Fina estampa é quiet luxury, você diria a Raquel Acioly, uma vítima da estamparia estereotipada.
No início da novela, tateei o porquê de sua aclamação pública, Odete, mas cabe retomar e expandir algumas ideias. Enquanto aquela, vivida por Madame Segall, tinha ojeriza por um Brasil que lhe era uma ideia formulada em preconceitos eurocêntricos, você parece, em algum momento, ter pisado nesta terra de fato (e, só depois de um tempo, ter sacudido a poeira dos sapatos). Racionalizou, inclusive, algo que sua antecessora somente intuía: nasceu não para ser mãe naquela nação (que renascia), mas para ser pai nesta pátria que se digladia entre truculências. Assim, o que soava como impropério num Brasil autocrítico foi reposicionado para parecer autêntico num contexto em que a verdade é mercadoria self-service. Nesse jogo de aparências, desaparecem os bastidores cinzentos do poder para prevalecer, agora, esse colorido resplandecente, que reduz a imagem a uma superfície lisa, rasa, sem convite ou possibilidade ao mergulho. Uma grande publicidade que, entre o ciclo de quimioterapia e o ciclo de OMO, culmina num “Quem matou?”.
Não espero resposta a esta carta com a revelação do assassino, mas reconheço que as possibilidades nunca foram tantas; afinal, você já havia nos avisado que as pessoas amam odiar o Odete Roitman. Sem querer repisar o trauma de um assassinato, insisto (com todo respeito) que há dois caminhos mais viáveis: a repetição do mal-entendido de outrora (em alguma nova formulação) ou o homicídio familiar, uma hipótese que, desde já, acentua as discrepâncias desta versão (logo explico). Pois convenhamos, Odete, para assumirmos seu assassinato como um fratricídio ou um parricídio, é preciso dizer que, antes — passada sua fase de “sensatez” —, você tentou, de inúmeras formas, praticar o filicídio.
É curioso, já que, seguindo a tendência original, você, a princípio, até que tentou traçar projetos de vida a esses filhos, mexendo os pauzinhos para unir Heleninha e Ivan e insistindo para que Afonso vivesse com Fátima em Paris. Mas, em alguma elipse, desistiu das crianças. É verdade que Afonso e Heleninha são tão alienados que parecem seres de outro mundo (aposto que, se desencarnassem como você, seriam enviados à Barbilândia de Greta Gerwig), mas a revelação (precoce) de que Léozinho estava vivo fez com que você, Odete, transitasse do patamar “mãe que despreza os filhos” ao lugar inédito de “mãe que deseja a morte dos filhos”. Ninguém pode dizer que você não se esforçou: se a mentira sobre Leonardo recusou a cura a Afonso, a revelação dele levou Heleninha à beira do precipício (literalmente). A verdade é dura, Odete, mas, como diz nosso amigo Chico Barney, de uns tempos para cá, você abraçou a incompetência (inclusive terceirizando-a ao capanga do capítulo de sábado, aquele que, depois de “Rashomon”, teve inspiração em “Tom e Jerry”).
Chego, então, à grande incoerência desta sua trama, cara Odete: o fato de que você foi o coração de uma tragédia shakespeariana, que, ironicamente, nunca pode se consolidar nesse gênero, já que, desde o primeiro capítulo, é encenada entre uma brasilidade “publi-ufanista” e o melodrama mambembe. Na história que nos é apresentada hoje, não deveria haver salvação ou recomeço possível a nenhum dos Roitman, a não ser pelo caminho individual; nunca pela manutenção familiar. Fato é que nem sua morte, nem as suspeitas recaindo sobre sua irmã, genro e filhos, trouxeram tal dimensão; pelo contrário, a farsa é que ficou saliente com todos ocupados em performances diegéticas canastronas para, supostamente, serem tirados da cortiça do delegado da Coleção Vagalume (que, antes, deve ter investigado “O Mistério do Cinco Estrelas”). Claro, há mais gente na jogada: Olavo pode muito bem ter usado bebês reborn (os únicos vendidos nesta versão) para entocar fuzis, Bartolomeu parece estar com hiperfoco em Odete Roitman, e ninguém garante que Nise partiu desta para uma melhor; nem que qualquer outro personagem não tenha um elo com ela e a finada Ana Clara (será que Heleninha providenciou o enterro digno para a amiga?).
A inconsistência do gênero atravessa das formas externas (mise en scène, som e montagem) às formas internas, isto é, os eventos e encadeamentos da narrativa. Nesse sentido, se há mais de 20 anos, Ivana Bentes acusou “Cidade de Deus” de promover uma “cosmética da fome” ao transformar a pobreza em produto através da imagem publicitária, Vale Tudo faz agora uma espécie de harmonização facial do luxo, representando a elite brasileira não como uma provedora histórica de violências, sadismos e injustiças, mas como retrato metalinguístico antirrealista, como se essa elite fosse só “coisa de novela”, numa obra mais atenta aos arredores audiovisuais (do streaming ao TikTok) do que ao país (“Brasil, mostra tua tela”). Querida Odete, vocês miraram no “Succession”, mas acertaram na “Gossip Girl”. Pelo menos, nesse quesito, a novela é um sucesso: só se fofoca sobre Vale Tudo. “Falem bem ou falem mal, mas falem de mim” é um clichê que cabe a sua embocadura, Odete.
Ah, os pobres?! Bem, eles que lutem, não é, Odete? Isso Vale Tudo disse e repetiu bastante; disse sem mostrar, já que Raquel, Poliana e cia foram, pouco a pouco, reduzindo suas presenças como sujeitos da ação e sujeitando-se ao papel de comentaristas morais, coro grego (mas, repito, isso é assunto para outro texto). Inclusive, vou me encaminhando para encerrar este, até porque aprendi no livro “Coisa de Rico” que o rico brasileiro tem que parecer ocupado, e imagino que, esteja onde estiver, sua agenda deve estar cheia, Odete. Aliás, estimo em saber que sua morte calhou com a de Diná, que, com Otávio, poderá te orientar no plano em que você estiver. Só torço para que eles não te induzam a outra reencarnação; duas, por ora, estão de bom tamanho. Aliás, para não me achar cricri, fecho com um elogio: sua intérprete fez de você, Odete, uma Roitman com vida própria, referente, mas independente da anterior. As comparações são inevitáveis, mas porque ultrapassam a relação atriz/personagem; envolvem o texto, direção, enfim, o resto que é o todo. Isso posto, me apresso, porque imagino sua exaustão após o capítulo de segunda, ocupado entre visitas e deslocamentos por aquele Copacabana Palace de tapadeiras mal ajambradas junto ao piso. Talvez por isso a morte tenha sido tão rapidinha e mal alocada; porque Odete Roitman estava cansada de capitanear uma novela em que as boas intenções às vezes não paravam de pé, às vezes, não tinham cabeça. Só cuidado, Odete, porque delas, o inferno está cheio; que Deus te livre de chegar lá e dar de cara com a trama do Vasco.
Descanse em paz,
Álvaro André Zeini Cruz
ps.: espero, sinceramente, que sua concepção de “X-Tudão” não seja um Subway, Odete, ou você terá morrido sem conhecer uma das melhores culinárias que nós, os pobres, saboreamos.