Bolsalidade videografada

por Álvaro André Zeini Cruz

A digitação é um exercício aparentemente simples, mas que demanda capacidades adquiridas ao longo da História da humanidade; aptidões que nos diferenciam como espécie. Exige, entre outras coisas, o movimento articulado de todos os dedos, incluindo polegar e indicador, cujo domínio nos tirou das cavernas. Foi em respeito a essa habilidade humana — que produz um determinado tipo de escrita — que assisti apenas à metade do vídeo de Tiago Pavinatto, que me chegou em mais de um grupo familiar de Whatsapp esta manhã. De antemão, me desculpo por não tê-lo visto por inteiro — uma condição, a princípio, sinequanon à crítica —, mas dos 50 minutos, 20 e poucos recortaram material o bastante para que eu pudesse escrever sem desrespeitar minhas várias capacidades sinápticas, incluindo a da digitação.

O vídeo de Pavinatto se enquadra no que Conrado Hübner Mendes denominou, em texto recém-publicado na Folha, de “grito de bolsalidade”. Começa com um estratagema bem contemporâneo: o clickbait, no caso, uma frase de efeito cuja provocação se dá acerca de um suposto telefonema do grupo Globo para Pavinatto. É comum que emissoras de televisão procurem especialistas para comentar determinados temas, mas a expectativa com a qual Pavinatto brinca para seduzir seu público diz respeito ao fato de ele, alguém de outro polo (ex-Jovem Pan, inclusive), ter despertado interesse de um grupo ideologicamente concorrente (supostamente). Desse clickbait, saí de mãos abanando; no tempo em que persisti no vídeo, Pavinatto apenas renovou a promessa dessa narrativa (que, aliás, ele usa como um validador de sua posição no debate público). De qualquer forma, desconfio que o interesse da Globo seja menos pelo sujeito como especialista e mais como figura sui generis. No mais, é, no mínimo, curioso que um provável vociferador da alcunha “Globo Lixo” busque, no conglomerado midiático, legitimação ou engajamento.

Não precisaria; entre digressões, Pavinatto desfia o próprio currículo, alinhavando-o a seus atuais afazeres — programa no portal Metrópolis, texto para a revista Oeste, docência em curso de Direito, tese de livre-docência — e acenando ao espectador que é um homem movido pela lei do esforço; sob o mito da meritocracia, esse é um chamariz para que se ganhe um lugar ao púlpito. Essa, digamos, é a digressão útil; pelo menos a mim, que, até esta manhã, não havia sido apresentado à dicção medida, nem ao timbre de mestre de cerimônias, tampouco às pausas perturbadoramente dramáticas de Tiago Pavinatto. É preciso reconhecer que se trata de uma oratória competente para quem tem algum tempo a perder; Pavinatto se coloca como um palestrante dado a divagações pretensamente poéticas. Em uma análise do discurso que considere o interlocutor ideal de sua fala, interessa menos o texto central e mais os arredores, isto é, os parênteses, as vírgulas e os apostos.

Se Roland Barthes nos ensina que toda fala contém uma crença de poder sobre o outro (tenho um conhecimento a oferecer a quem não tem), Tiago Pavinatto discursa entre digressões, partindo do pressuposto egóico de que pode se permitir a desvios de discurso, afinal absolutamente tudo o que o tem a dizer é fundamental ao outro. Sua defesa aberta e videografada a Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Silas Malafaia — possível porque não estamos em uma ditadura — poderia se restringir a um malabarismo retórico (e factual) mais breve e direto, mas esse desenvolvimento é secundário; no fundo, o que realmente interessa são as perambulações discursivas. São nelas que estão instalados os verdadeiros ganchos do vídeo, que pegam o espectador pelo colarinho e prometem uma jornada crítica. Entregam justamente o oposto, idealizando, do outro lado, um público que prefere ter suas crenças e ressentimentos endossados, seguindo regido pelo prazer infantil de enxergar o mundo não pela complexidade (como nos ensina Edgar Morin), mas pelo maniqueísmo.

São passagens inspiradas: segundo o influente Pavinatto (que faz questão de pavonear seus contatos com Bolsonaro, com a Globo, com ministros do STF), o Brasil contemporâneo se compara a um inferno, em que a Polícia Federal age como uma “Gestapo tupiniquim” a mando do “Salazar tropical” Alexandre de Moraes. Pouco importa a responsabilidade histórica-factual dessas comparações; as citações a Gestapo e Salazar surgem como chancelas intelectuais, ignorando que tanto o órgão hitlerista quanto o político português eram de direita, de uma extrema-direita. De um apelido a outro, Pavinatto logo transforma o que chamou de Gestapo Tupiniquim em “Gesparadrapo”, instalando nesse pejorativo um misto de indignação caduca, humor e criatividade de jardim de infância. Assim, vai se legitimando a partir de um discurso que tem um receptor ideal (porque todo texto pressupõe um) aquele estudado por Adorno e pela Escola Crítica; isto é, entendido como indivíduo completamente passivo, entregue aos mandos da indústria cultural e ao desejo de alienar-se em discursos que lhe são confortáveis (e para que não me acusem de usar uma visão datada da recepção, vale lembrar que, embora os Estudos Culturais entendam o público como sujeito ativo, reconhecem também a possibilidade de aderência a discursos hegemônicos alienantes e opressores). Delinear o público aderente a esse tipo de discurso demandaria um estudo de recepção (assumindo que todo recorte tem suas nuances e variações), e não é objetivo deste exercício crítico hipotetizar essa decodificação, mas, sim, a codificação do vídeo, bem como suas negociações. É onde o truque se esconde: no discurso travestido de crítica, mas que coloca em órbita uma série de elementos catárticos, que se alimentam e reforçam a crença de quem chega ali. Os rodeios, o tom indignado, a reiteração dos ganchos, o salpicar de conceitos realocados e vocábulos robustos, as pausas dadas não ao pensamento crítico, mas à suspensão como provocação da ansiedade: todos os elementos discursivos se encaminham a um único objetivo — a reiteração das micro-caterses. Ou, como prefere a psicanalista Maria Rita Kehl, dos mini-gozos.

Kehl, aliás, vincula o fazer publicitário ao ofício de “mestre do gozo”, entendendo que a publicidade negocia fetiches nos dois sentidos, freudiano e marxista, operando uma negociação entre a negação/ilusão e desejo pela mercadoria a ser saciada pelo gozo do consumo. Como Mestre do Gozo (mal) disfarçado de filósofo, Pavinatto entrega a seus espectadores uma saciedade catártica, travestida de ilusão crítica; ainda que não haja, de fato, crise, fricção das ideias (porque só há ali uma única ideologia, uma única visão de mundo), a forma do discurso impressiona uma racionalidade, cercada por legitimações diversas e voláteis. A pronúncia americanizada da palavra “Whatsapp”, o enquadramento milimetricamente composto para revelar um pedaço da estante de livros (as lombadas grossas encapadas em couro), a camiseta básica que conota o combate a supostas injustiças no tempo livre em casa. Tudo compõe uma arquitetura estilística/discursiva minuciosa. Nem os esquerdistas Chico Buarque e Gilberto Gil — partes num processo contra o próprio Pavinatto — escapam como elementos validadores. Pavinatto, talvez, preferisse citar Gustavo Lima, mas, provavelmente, o sertanejo não teria o mesmo peso para uma carpintaria importante ao vídeo/discurso — a da perfumaria intelectual.

É essa a mercadoria entregue no discurso de Tiago Pavinatto: a identificação ilusória com um vídeo pseudo-crítico, que promove uma autocongratulação intelectual satisfatória, quando, no fundo, só o que faz é desfilar impropérios rasteiros e vulgares, embalados sob uma indignação pretensamente poética, que, curiosamente, parece mais alinhada aos preceitos da arte moderna do que do classicismo (tão caro ao campo conservador). A palestra do jurista e professor universitário é pura falácia; a carne da obra é a “careca sem chifres” (entre outras ofensas usadas contra Alexandre de Moraes), o bom combate pela ridicularização dos atributos físicos, como fazem todos os bons meninos da 5ª série. Mas a ofensa infantil tem embalagem própria, despontando como emoção calculadamente genuína sempre que a névoa professoral se dissipa, criando a persona de um homem culto, mas que é gente como a gente.

Assim, como se recitasse um poema em um sarau, Pavinatto diz: “O noticiário foi de fazer cair o cu da bunda [pausa], um lugar de onde não caem os pêlos, que insistem em cair da nossa cabeça [pausa]. Mas na bunda, eles crescem, não caem”. Terrible enfant da poesia brasileira, ele domina as palavras para reconduzi-las ao campo das imagens — elas que constroem a sociedade do espetáculo, que promovem os mini-gozos —, tão caro ao bolsonarismo. Em outra passagem inspirada, decreta que, hoje, o Brasil se traveste de democracia, “com uma minissaia tão ordinária e tão curta que sequer consegue disfarçar os ovos proeminentes desta ditadura”. No ímpeto do discurso indignado, talvez não tenha percebido a transição psicanalítica da fase anal à fase fálica, tampouco alguns atos-falhos: a consciência de que o autoritarismo das ditaduras sempre se associa à distinção sexual como poder; a misoginia e transfobia da metáfora, que, sem querer, retomam o objeto central ao complexo de castração e, consequentemente, ao fetiche.

O fetiche que Tiago Pavinatto proporciona no vídeo (nesses 20 minutos de vida que perdi) é o da bolsalidade (emprestando o neologismo de Hübner Mendes) sob o verniz de intelectualidade, de crítica, esta que, a priori, deveria formar uma dialética com a catarse, para que, dessa interlocução, surja uma síntese. Contudo, não há ali qualquer reflexão sobre a maleabilidade que defensores de torturadores dão, agora, aos Direitos Humanos; tampouco é posto em pauta o fato de que o próprio proponente da Magnitsky defende que a aplicação da lei é equivocada no caso brasileiro. Nada disso importa; interessa a manutenção dessa fina cortina de fumaça que impressiona crítica, racionalismo e civilidade, mas que regurgita, reiteradamente, o velho conceito aristotélico, a descarga fisiológica e psicológica, emocionalmente prazerosa e moralmente satisfatória, que nos livra da crise, rejeita a necessidade de reflexões profundas, permite uma escapatória da complexidade do mundo.

O filósofo Didi-Hubermann tem um livrinho cujo título é pedagógico em apresentar o trajeto entre catarse e crítica: “Que emoção! Que emoção?”. O discurso videografado de Tiago Pavinatto soa como uma descarga apertada sucessivas vezes: “Que emoção! Que emoção! Que emoção!”. É um discurso preparado para quem não quer encarar o contraditório, mas também deseja recalcar essa negação fundamental. E sem contraditório, não há o segundo movimento, não há a interrogação.

O que a Globo queria com Pavinatto? Por mais que eu estude a emissora, a curiosidade pelo saber não foi forte o bastante para que eu persistisse no discurso. Há coisas mais importantes a se saber, e coisas melhores a se fazer na vida.