Baby Reindeer

por Álvaro André Zeini Cruz

Como quebram os seres humanos?

Desde que existe, a dramaturgia é habitada por esses seres falhos, pressionados a agirem sob determinadas circunstâncias. A narrativa seriada dos últimos 25 anos, no entanto, tem nos apresentado mais do que seres falhos, mais do que humanos frágeis; tem nos conduzido a sujeitos conscientemente fraturados, cujas jornadas tentam, em vão, remendar uma ruptura irremediável. De Tony Soprano e Don Draper à Fleabag e os irmãos Roy, essa pequena grande tragédia tem se alastrado e chega agora a este indivíduo, talvez o mais medíocre dos personagens — Bebê Rena.

Medíocre não no sentido da construção dramatúrgica — não se trata do que se costuma chamar de personagem flat —, mas conscientemente medíocre, sapiente das próprias limitações, de que é mau humorista, de que talvez tenha pouco a satirizar porque tem nada a dizer. A pequena tragédia de Donny (Richard Gadd) está nesse reconhecimento conformado de que a humanidade, especialmente a contemporânea, tende à mediocridade. Ele é a prova viva disso. Mas um gesto de bondade faz com que Donny ganhe um palco, seja centro de uma atenção. Donny cativa Martha (Jessica Gunning), e a frase de O Pequeno Príncipe recai sobre ele como uma espécie de maldição. Pior: Donny, cujo objetivo físico/pragmático é livrar-se de Martha, vai, pouco a pouco, descobrindo que necessita dela psicologicamente.

Essa trama, em que uma descompensação psico-emocional abre brecha para que outro desequilíbrio de mesma ordem retroalimente o primeiro, não é exatamente nova; no romance Stalker, de Tarryn Fisher, a autora monta situação parecida em tríade — a stalker do título revela que o casal que persegue é composto por um sociopata e uma narcisista. Em Baby Reindeer, a habilidade de Richard Gadd está em soltar a corda da trama que vai enredando Dony à Martha (e vice-versa) e renovando a pergunta — “ele não vai fazer isso… vai?”. A incredulidade das ações logo se realoca de Martha — essa mulher-sintoma, cujas questões supomos, mas nunca sabemos de fato — a Donny, o homem fraturado ao meio, quase que literalmente.

Isso porque o episódio traumático em que os maiores abusos físicos e psicológicos acontecem é o 4°, justamente o centro da temporada. Quando a ausência de Martha parecia propiciar um respiro, uma lufada de ar, uma ameaça pior se apresenta sem grandes constrangimentos ou dissimulações. O episódio equivale ao conhecido caso do enforcamento praticado por Tony Soprano em The Sopranos; isto é, se o público passar dali é porque comprou a série, é porque está disposto a assistir as microfraturas que se desdobram desta vertebral. Está disposto a ver esse homem estilhaçar.

Quando Midge Maisel (Rachel Brosnahan), a dona-de-casa fragilizada de The Marvelous Mrs. Maisel, sobe ao palco para um show de stand up comedy, ela se fortalece ao expurgar as dores e se empolga a ponto de mostrar os seios à plateia, como se precisasse recompor a própria materialidade nesse ganho de força. O stand up derradeiro de Donny está no extremo oposto: o corpo vai se amassando, reproduzindo fisicamente essa mediocridade crente, estilhaçada em objetos cortantes. Martha volta porque ela é esse caco-boomerang, que, antes de ferir, reflete e reluz a imagem de quem ela objetifica. É por esse lampejo de si próprio que Donny e se encanta. No ato da piada sem graça, em que vomita os traumatismos e os traumas, Donny veste um terno xadrez e remete ao Coringa de Joaquin Phoenix (série-sinal dos tempos de/para uma contemporaneidade de referências imediatas), sem maquiagem. O rosto magro, machucado, com os olhos escorrendo em órbitas amalucadas, basta como gerador ambíguo de empatia e constrangimento.

Volta a pergunta: quando quebram os seres humanos? Teri (Nava Mau), a única que sabe quem é, quebra sob surra de Martha; mais tarde, expõe isso a Donny na síntese de uma frase dilacerante — “ela disse que eu pareço um homem”. O pai fora quebrado na vida pregressa, e essa ruptura vem implícita na frase — “eu fui criado na igreja católica”. A conjectura dessas frases sugere que essas cicatrizes existem entre razão e emoção; lembram que, bem ou mal, os cacos foram colados. Donny tem entraves de comunicação; exceto pelo vômito verborrágico no show, ele titubeia, cala, engole as coisas. Ele e Martha são estilhaços soltos, que se retroalimentam num vórtice cortante.

Irmão caçula de Fleabag, em tramas de dores que rasgam pulsões, Donny não tem a mesma sorte que a personagem de Phoebe Waller-Bridge. Ao longo dos anos, em aulas de roteiro, alunos têm me perguntado qual o tema, a idéia governante de Fleabag; eu conjecturo uma construção entre as duas temporadas — perder para aprender a amar; amar para aprender perder. No ciclo de Donny não há aquele que Mário de Andrade assente como verbo intransitivo; há apenas perder para, de novo, perder. 

A pergunta “como quebram os seres humanos?” carrega, por si só, um pessimismo intrínseco: a crença que quebramos para sempre, sem possibilidade de cura, apenas paliativos. Crença que talvez seja sinal dos tempos, o que explicaria o sucesso abrupto e descomunal de Baby Reindeer, da Netflix. A diferença entre Donny e os outros quebrados citados, é que ele nunca luta realmente; seus atos são sempre farsescos, ilusórios. Sua trajetória não traça um ciclo, como em Fleabag, mas um movimento helicoidal em direção a um fundo infinito. Ou, pelo menos, até o desfecho (incontornável) a qual chegam os sobreviventes de Six Feet Under.