por Álvaro André Zeini Cruz
Em Elefante, a câmera flutuante de Gus Van Sant segue — sem perseguir — adolescentes nas idas e vindas entre salas e corredores de uma escola. É um olhar que boia, comedidamente fascinado por aquelas existências tão iniciais, quanto banais; figuras que circulam e palpitam as contradições do crescer humano entre as veias e artérias de uma arquitetura funcional. Era 2003 e começava-se a falar em cinema de fluxo. E embora não fosse o caso de Elefante, confundia-se ao novo conceito (aproveitando-se dele) a acentuação de um comodismo da decupagem mínima, aquela que não planeja e cerca a ação, mas se sujeita a ela, como se o olhar fosse uma carry-on na esteira.
22 anos depois, a Netflix surpreende ao revisitar o tema da adolescência numa minissérie que, em 4 episódios, parece carregar a memória do filme de Van Sant, mas sob a consciência de que os tempos são outros. Assim, os planos longos dão lugar a planos-sequências, que manejam um olhar menos moderado do que em Elefante, já que, lá, o fluxo nos conduzia, entre vidas, até a iminência violenta da morte. Na série de Stephen Graham e Jack Thorne, a queda da água já passou e, agora, vive-se o vórtex dos corpos e destroços.
Não se trata, portanto, das últimas pulsações, como em Elefante, mas dos espasmos insistentes que teimarão a partir e acerca da morte. Entre paternidades letárgicas e adolescências que, de tão conectadas, tornaram-se desconexas — quando não, sádicas —, o colégio é visto da mesma forma como a delegacia, porque são instituições paliativas, que lidam — cada qual a seu modo e tempo — com as incapacidades da linguagem diante das falências de caráteres. Nesse sentido, ainda que as traquitanas sejam indispensáveis, a recorrência da câmera na mão — nem sempre na steadicam —, parece não somente uma escolha prática, mas também ética, como se coubesse ao olhar recuperar uma urgência humana e, consequentemente, uma capacidade de se recompor diante do que descompõe transversalmente — a inocência, a alteridade, o futuro.
Essa capacidade de não se acomodar a um ponto de vista reaproxima o trabalho de câmera do de Gus Van Sant, reconduzindo o olhar à habilidade de decupar, seja no fluxo ou no redemoinho. Dois momentos no primeiro episódio ilustram isso. No primeiro, quando deixados a sós na sala de interrogatório, Eddie (Stephan Graham), o pai, se inclina para falar com o filho, Jamie (Owen Cooper), 13 anos, acusado de assassinar uma colega da escola. Na composição, o rosto do menino — num ¾ frontal — é mais visível, enquanto o pai, de perfil, anuncia — “vou te perguntar uma vez só, tá?”. A fala antecipa e a câmera entende o que vem aí; sabe também que não é justo que a mais dolorosa das perguntas ocorra diante de um rosto e meio (o do filho por inteiro, o do pai pela metade). Então, essa câmera humanamente idealizada — que não treme ou tropeça, mas sabe diagnosticar emoções — se aproxima e faz uma discreta correção à esquerda, reenquadrando pai e filho em equidade. Os dois rostos em ¾ frontais, a sustentação dos olhares comunicada na imagem: “Foi você?”.
Jamie responde, mas uma prova surge para revelar a verdade factual e abrir um abismo de dúvidas abstratas, irrespondíveis. O episódio termina com a câmera a certa distância, mas diante deles, pai e filho, sentados lado a lado. Ambos levam a mão ao rosto, carregando, na ação, motivações diferentes, mas também estabelecendo uma espécie de réplica incompleta, geracionalmente atravancada, mas, ainda assim, dada entre gestos, posturas, genética e habitus. Espelham-se, mas não se reconhecem; entre eles, abre-se o abismo das monstruosidades humanas e das humanidades monstruosas, sem que sejam dicotomias estanques ou exatas. Nesse jogo de mãos, a câmera — olho da mão humana — vê de longe; não precisa do toque, uma vez que não se trata de sentir a pulsação. Segue assistindo esses espasmos personificados; mortos-vivos mortos cada vez mais cedo.
Se em Elefante, Gus Van San vasculha humanidade numa panorâmica entre as pistas de um quarto, aqui, o quarto estrelado remete a uma farsa tão bem ajambrada que ninguém enxerga, todos se enganam. É preciso olhar o Instagram, diz outro filho a outro pai. É preciso um “quarto” vazio para que se note a verdadeira violência dos espasmos quando confrontados. De mão em mão (vejam o making of), a câmera constitui um ideal humano para ver de perto, mesmo em vão, as dores incompreensíveis e inexplicáveis, nesse ínterim entre as mortes. Segue, humanamente, buscando motivos, à espera de uma autópsia.

