A volta dos que não foram

Por Álvaro André Zeini Cruz

Captura de Tela 2016-02-29 às 16.59.51

Há alguns regressos no filme de Iñarritu e DiCaprio. O mais contundente (infelizmente) é o da câmera-punheta, que, masturbação narcisista em Birdman, aqui se revela ainda mais equivocada por crer-se poética–espiritual (quando, na verdade, permanece no plano terreno). A crítica bem que tateou uma possível evocação a Malick ou Tarkovsky, algo que, de fato, pode até ter perpassado a cabecinha desacertada de Iñarritu, mas que nunca se concretiza plenamente. Pode-se até considerar uma aproximação com Malick se tomado como exemplo um filme torturante como Amor pleno, mas jamais pensando-se em obras como Cinzas no paraíso ou Árvore da vida. Com relação a Tarkovsky, a discussão se torna ainda mais rarefeita: a câmera, para Tarkovsky, era uma espécie de espectro que se alinhava ao espírito do mundo circundante e, a partir dessa conjunção espiritual, impregnava a tela. Iñarritu, é inegável, busca essa espiritualização: alterna a câmera do corpóreo (o massacre da sequência inicial) ao idílico (as copas das árvores contrapostas ao céu), recorrendo à estética de uma steadycam que paira, como se quisesse subir aos céus, seu suposto lugar de origem. Mas é a matéria – e, mais especificamente, o corpo – quem desmascara a farsa desse olhar supostamente celestial, revelando-o, na verdade, mundano como poucos: a faringe dilacerada, as artérias abertas ou a cabeça escalpada são imagens-atos-falhos que derretem as asas dessa câmera-Ícaro, ambiciosa e deslumbrada com si própria desde o filme anterior (bons tempos os da parceria com Guillermo Arriaga, em que toda a pretensão recaía sobre o roteiro multi-plot e permitia, assim, certa integridade à forma).

É, de certo modo, também um regresso de DiCaprio ao mais célebre momento do último filme de Scorsese: se, em O lobo de Wall Street, a boa cena em que se arrastava e babava sob efeito de drogas quase lhe rendeu o Oscar, aqui, a alternância desses atos durante um filme inteiro deve (finalmente) levá-lo à estatueta (este texto data de antes da premiação). DiCaprio, de qualquer forma, caiu do cavalo (digo, além da queda no próprio filme), afinal, Iñarritu não é Scorsese (e o tempo, geralmente, revela esses embustes). Em suma, será mais um desses casos em que um ótimo ator é congratulado por um de seus trabalhos mais duvidosos (como, recentemente, Meryl Streep em A dama de ferro).

Por fim, há o único regresso reconfortante: o nosso. Seja para onde for, contanto que para além de outra sessão de O Regresso (The Revenant, EUA, 2015). Pois se as longas 2 horas e 36 minutos de filme pretendem ser uma experiência estética transcendental, conseguem, no máximo, ser uma experiência física – a do estômago revirado. Numa analogia atual, pode-se dizer que Iñarritu se vê como um cineasta que aponta a câmera para um golfinho em alto-mar, faz uns rodopios e acha que assim captou a alma. No fundo, pegou o golfinho no colo e fez um selfie. Com o golfinho morto. Sinal dos tempos.