por Fábio Fernandes

As melhores adaptações de Stephen King para o audiovisual parecem ser as de contos ou romances não exatamente de terror ou de ficção científica, mas sobre a natureza humana em geral. É o caso, por exemplo, de Um Sonho de Liberdade: o filme de Frank Darabont é bem fiel à novela, com poucas alterações que não afetam em nada a trama. Um homem, Andy Dufresne, é acusado de assassinar a esposa; se ele é inocente ou não, nunca fica claro, muito embora ele afirme o tempo todo que não cometeu aquele crime. Mas o que importa na história é o desejo de liberdade de Dufresne. O filme acompanha o presidiário ao longo de décadas, até que ele consegue, seguindo meticulosamente um plano de longuíssimo prazo, se escafeder do presídio — e sem nenhum auxílio sobrenatural, diga-se de passagem, usando apenas sua inteligência e uma paciência impressionante.
Já alguns outros não se encaixam exatamente na categoria do fantástico, embora possam sim entrar num território limítrofe, uma zona do crepúsculo entre o insólito e o real. Aqui podemos pensar em À Espera de um Milagre, um dos melhores exemplos de realismo mágico no cinema estadunidense. Esse filme, também passado num presídio e também dirigido por Frank Darabont, não trata de fuga, mas de vida e morte: o fim que espreita no corredor da morte (a “milha verde” do título original, The Green Mile) e a vida que o presidiário John Coffey é capaz de conceder miraculosamente através de seu toque. E, também como o anterior, foi adaptado com bastante fidelidade do romance de Stephen King.
A Vida de Chuck lembra mais o segundo que o primeiro filme, apesar de não ter presídio nem Frank Darabont na direção. Por outro lado, Mike Flanagan também fez uma adaptação rigorosa da novela de King. A narrativa, publicada em sua antologia recente If It Bleeds, é praticamente uma Sessão da Tarde: uma daquelas histórias que não chegam a ser assustadoras, mas às vezes incômodas e até mesmo um pouco aconchegantes — como aquelas dores musculares com as quais já nos acostumamos, ou mesmo como as alegrias mais serenas (o coração também é um músculo).
Difícil não dar spoilers numa história do King. Tudo bem: talvez o mais importante sejam os personagens. Flanagan já provou que sabe muito sobre construção de personagens em roteiro e tem um olho ótimo para escalação de elenco. Em que pese o fato de que A Maldição da Residência Hill tem seus jump scares feitos sob medida para os mais jovens, esta e suas outras séries feitas para a Netflix — com destaque para a excelente Missa da Meia-Noite — revelam um gosto apurado para um horror que se apoia nas angústias de seus personagens e não nos efeitos práticos e especiais.
Dito isso, A Vida de Chuck não é um grande filme. É um filme, isso sim, comovente e envolvente. Divertido em algumas partes, e surpreendentemente sensual em outras, como a cena de dança entre Tom Hiddleston, o Chuck, e Annalise Basso (de Snowpiercer, a série e não o filme de Bong Joon-Ho), que lembra muito o clássico Férias de Amor (Picnic): a cena de dança entre Chuck e Janice não é mais sensual que um William Holden descamisado e na flor da idade rebolando com a estonteante Kim Novak em 1955 — mas chega perto. É uma cena para ficar eternizada na história do celuloide (ou do digital).
E não vai muito além disso. A história é contada de trás para a frente e é (como já dissemos à exaustão) fiel à história original de King. Os personagens são os americanos típicos, gente-como-a-gente que King se especializou em criar, e que convencem. Os horrores, quando aparecem, podem até ser sobrenaturais (o que acontece neste filme é mais surreal que fantástico, mas vá lá que seja), mas são encarados não com armas (nas histórias de King e mesmo nas de Flanagan eles raramente são) mas com sentimento. É um filme que deixa você com algumas lágrimas nos olhos e um quentinho no coração — e está tudo bem. Precisamos desses filmes — e nos dias de hoje, como precisamos.