A Teia vermelha da Vênus Platinada

por Álvaro André Zeini Cruz

Não passou desapercebido o PowerPoint do Estúdio I, programa da GloboNews capitaneado pela jornalista Andréia Sadi. E, convenhamos: como arte gráfica, é muito melhor do que aquele tornado célebre pelo do ex-procurador e deputado cassado Deltan Dallagnol. Tal qual o proponente, o slide de Dallagnol era pálido, uma água de salsicha se comparado ao da GloboNews — sustentado como insert gráfico e na tela do estúdio — que, não só é mais bem acabado, como mais ardiloso.

Comecemos pela forma: ao invés das flechas nascentes dos nomes em círculos brancos, barbantes vermelho-sangue conectam o que Sadi descreve como “a teia do caso Master”, o que, por si só, pensa a corrupção não como uma construção sociocultural, mas algo da natureza dos envolvidos. A metáfora de Sadi é parcialmente precisa, já que aranhas tecem teias para capturar alimentos e se nutrir deles por completo, enquanto as relações entre o Capital hegemônico e o Poder Público são mais próximas do parasitismo, havendo, assim, o interesse de que o corpo parasitado (a Instituição pública sobreviva). Nesse sentido, é comum que o poder privado coopte o Estado, através de seus agentes, para ajudá-lo a saciar seu apetite, ainda que performe a defesa do “Estado mínimo” (na verdade, Estado mínimo para os pobres, para que inexista a situação reclamada pelo CEO de uma construtora em manchete recente da Folha de São Paulo — “Filho de pedreiro não quer mais ser pedreiro”). Menos “em foco” pela Globo News do que “Ainda estou aqui”, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, trata justamente disso, de como o empresariado brasileiro se nutriu da ditadura e tentou neutralizar iniciativas públicas que pudessem diminuir seus ganhos.

Tecida pouco a pouco, numa animação canhestra e em compasso com a apresentação da jornalista, a teia que se propõe não é, portanto, de algozes e vítimas, mas de uma colaboração entre indivíduos que se nutrem de algo em comum — uma relação que, tudo indica, existiu, mas que segue incerta quanto aos indivíduos envolvidos. A metáfora mais precisa seria a de uma colônia, mas abelhas e formigas não despertam a sensação de perigo e abjeção como aranhas. Para além da vociferada ideia de teia, o quadro se inspira ainda naqueles de delegacia, conhecido pelo público de obras policiais — um parecido pode ser visto, por exemplo, na novela Três Graças.

A construção simbólica está dada e respaldada, seja pela ideia de teia, seja pela de mural de suspeitos. Pode-se, então, seguir ao caráter icônico da fotografia, signo cuja representação, nos lembra Charles Sanders Peirce, se relaciona com o objeto real por semelhança; e, também nesse quesito, a arte do grupo Globo é mais eficiente do que a de Dallagnol, que recorria aos nomes escritos, ou seja, à inferência simbólica. O decalque no centro da cortiça pixalizada, sob o título “Conexões de Vorcaro”, é do banqueiro Daniel Vorcaro, a “aranha Master”, que, enquadrada numa polaroid, vai enredando, na narração de Sadi, outros agentes públicos. A surpresa vem das fotografias que aparecem num imediatismo espaço-temporal: nas cercanias mais próximas de Vorcaro, surgem, não Ciro Nogueira — presidente do Progressistas e “grande amigo da vida”, segundo o próprio Vorcaro —, nem Antônio Rueda, presidente do União Brasil que advogou para o Master e que, como Ciro, voou no helicóptero do banqueiro após uma corrida de Fórmula 1. Nada disso: quem aparece nos arredores mais próximos de Vorcaro são o Presidente do Banco Central Gabriel Galípolo, o ex-Ministro da Fazenda Guido Mantega e o Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. Ah, sim, também um símbolo: a estrela vermelha, figura atrelada e reconhecida ao Partido dos Trabalhadores.

Alguma relação entre Vorcaro e Galípolo é inevitável, já que um é banqueiro e o outro Presidente do Banco Central, mas Galípolo é colocado na parte central da teia, a despeito de ter ordenado as investigações de dois diretores do Banco Central — promovidos no governo Bolsonaro — que efetivamente auxiliaram Vorcaro a camuflar a fraude; algo que é lembrado pelos jornalistas no decorrer da matéria, mas não anula a força da imagem. Diretor da instituição nomeado no período dessas promoções, Campos Neto não aparece no enredo, nem é mencionado. Bolsonaro é outro que não está na arte (nenhum dos Bolsonaro, aliás; apesar de que Flávio teve o sobrenome “extinto”, como bem observou o Intercept Brasil), e só é citado nessa e numa outra ocasião, quando os jornalistas trazem o nome do deputado Nikolas Ferreira (Sadi talvez não tenha se lembrado da própria matéria ao G1, que consta sobre a doação do cunhado e cúmplice de Vorcaro à campanha bolsonarista de 2022). Ainda que tenha viajado no avião de Vorcaro para a campanha do ex-presidente, a foto do deputado-influencer surge num dos cantos mais distantes do quadro, assim como Nogueira e Rueda, que compõem quase outro “continente”. Lula, por sua vez, forma um quase arquipélago com Vorcaro, posicionado acima e à esquerda do banqueiro, apesar de — ao que consta até agora — só tê-lo recebido uma vez, junto do próprio Galípolo, Mantega, e do Ministro da Casa Civil Rui Costa. Costa, por sinal, é mencionado, junto ao senador Jaques Vagner, como envolvidos no caso Master, mas, diferente de Nogueira e Rueda, foram “poupados” para que a estrela petista brilhasse solitária como única logo do quadro.

É verdade que logo abaixo, consta a legenda “PT da Bahia”, mas é também verdade que, apesar de, até agora, este ser um escândalo majoritariamente da direita — como bem observa Celso Rocha de Barros em sua coluna para a Folha de São Paulo —, a teia faz questão de trazer apenas esse único símbolo partidário, costurando-o nas imediações do banqueiro acusado de corrupção. Trata-se de uma síntese nada inocente que, em ano eleitoral, tenta atrelar a imagem de um partido inteiro num escândalo, enquanto líderes de outros partidos e poderes aparecem individualmente, mas diluídos seja pela sombra da estrela, seja pela marginalização com que são postos no quadro — Davi Alcolumbre, Hugo Motta e João Dória compondo a borda esquerda do quadro (tomara que o designer da arte não migre para a cartografia, ou periga o Brasil se avizinhar da África ou Europa e se afastar da Argentina). Nesse cenário, cabe a Thomas Traumann fazer aquele tipo de ponderação calculada para parecer “olha como tratamos tudo com imparcialidade e isonomia” — é um escândalo suprapartidário, diz o jornalista, ainda que o símbolo de um só partido apareça no “balaio”.

Nesse mesmo sentido (antes mesmo da fala de Traumann), Valdo Cruz diz se tratar de um escândalo que pega todos os lados — mas, adivinhem qual o primeiro partido citado por ele numa enumeração? Sim, o PT (quase na entonação daquele meme “o Pêtê!). Só depois Valdo lembra do PL e do PP, mas para por aí (ainda que haja ali dois representantes do União Brasil e um do Republicanos). Ah, sim, no olho do furacão desde o início do caso, o STF aparece com dois representantes: o Ministro Alexandre de Moraes e o ex-Ministro (do STF e da Justiça) Ricardo “Lewendowski” (assim mesmo, com erro na grafia). São, de fato, personagens indispensáveis, mas não passa desapercebida a ausência do protagonista dessa instituição — o Ministro Dias Toffoli, cuja empresa manteve negócios com o banqueiro.

A ausência de Toffoli é notada por Valdo Cruz, e é a vez de Arthur Dapievi vir ao socorro da teia, que começa a se embolar: “é importante frisar que essa arte não significa envolvimento, significa conhecimento”. Dapievi reconhece que Toffoli é o mais envolvido, mas a ausência sempre diz algo, e as entrelinhas desta dão uma piscadela à direita do caso, uma vez que Toffoli foi defendido publicamente por Nogueira e Rueda, e conta com a simpatia de uma parcela do bolsonarismo. Na tela, no entanto, estão o ex-Ministro do governo Lula e Moraes, que é associado por parte da opinião pública a Lula, seja por ser o nome-chave na condenação de Bolsonaro, seja porque a própria Globo News reforça, sempre que pode, essa leitura do público; consequentemente, a associação em si. Assim, das onze fotos ligadas graficamene a Vorcaro, o espectador, num vislumbre distraído, associaria a Lula pelo menos seis imagens (Moraes, Lewandowski, Mantega, Galípolo, além do próprio Presidente e seu partido), podendo ainda, a depender do espectador, haver a inclusão de Alcolumbre, Hugo Motta e até João Dória, que já fez acenos a Lula.

Com apenas Nikolas, Nogueira e Rueda marcadamente no campo oposto (ainda que o União Brasil viva a situação esdrúxula de não compor o governo compondo), a teia faz com que as relações de Vorcaro passem, ainda que num imaginário da opinião pública, pela figura de Lula. Assim, a cortiça de delegacia pende o escândalo ao governo, ainda que nada, nem as notícias do próprio grupo Globo, sustente esse cenário. “É só um aperitivo”, diz Valdo Cruz, que emenda que outras pessoas também têm envolvimento com Vorcaro. “Pode ser só político, é normal; ele era um banqueiro em ascensão”, conclui Valdo, usando uma justificativa que, pelo visto, não coube ao Presidente da República durante a feitura da arte (e a reunião de pauta, editoria, etc.). 

Por fim, e não menos importante, é o casting que cerca esse fatídico PowerPoint: se, por um lado, não temos vozes reacionárias como Demétrio Magnoli e Merval Pereira (e, neste caso, vou incluir Gabeira, que dia desses sugeriu um reset no STF), por outro, vozes mais insurgentes como a de Octávio Guedes e Flávia Oliveira não foram escaladas para comentar a arte. De longe a melhor jornalista do canal, Oliveira provavelmente apontaria a arte como problemática e tendenciosa; foi ela, aliás, quem observou um hiperfoco da imprensa no STF, um posicionamento que oportuniza que a classe política passe ilesa em ano eleitoral (e Merval rebateu que o foco deve ser, sim, no STF). Assim, estavam sob a batuta de Sadi, três jornalistas considerados moderados, desses que personificam o mito da imparcialidade, mas não titubeiam em abraçar interesses e discursos (ou narrativas, para usar o termo da moda) que vem do andar de cima, dos executivos da emissora. Principal nome do grupo Globo a assinar as manchetes acerca do caso Master, Malu Gaspar foi poupada de ter sua imagem — já bastante atacada — junto ao ppt; e apesar de não concordar com os ataques ao trabalho de Gaspar, que conheço desde o Foro de Teresina, reconheço nela uma das responsáveis por esse hiperfoco no STF, algo que não só desbalanceia o caso, como pode ser usado como brecha a quem tem intenções antidemocráticas, como bem apontou Rocha de Barros num dos episódios recentes desse mesmo podcast.

É preciso dizer que, após cair da teia da Lava-jato direto nas garras do bolsonarismo, o grupo Globo — que tem bons jornalistas — fez um trabalho combativo importante (sobretudo na pandemia) num período em que a maioria das outras emissoras se deixou levar pelo canto “Tomorrow belongs to me” que se ensaiou — e se ensaia — no Brasil (vejam o filme “Cabaré”). Agora, de posse de uma pesquisa do Instituto Quaest (aquele cujo CEO é um showman que bate carteira no canal de notícias) que identifica o brasileiro mais conservador, o grupo tenta reaver essa parcela do público, algo que se evidencia, por exemplo, na demissão de Daniela Lima e na onipresença de Joel Pinheiro. O PowerPoint, no entanto, é uma nova velha volta no parafuso, que supera a época dos backgrounds com dutos de dinheiro, mas continua usando a força da imagem alinhada à consciência daquilo que nos fala o pesquisador televisivo Jeremy G. Butler — a televisão não necessariamente precisa ser o meio do relance (a teledramaturgia nos prova isso), mas, muitas vezes, o é. É nesse sentido que as ponderações orais e voláteis dos jornalistas não contrabalanceiam nem reduzem a onipresença da imagem no telão (e eles sabem disso), numa arte redutora, cuja síntese contraria todo noticiário. A estrela ali plantada tem a intenção de semear a desconfiança — e, possivelmente, o ódio — a um partido por inteiro, retroalimentando e reposicionando uma polarização que os jornalistas da casa vivem vendendo como um problema recente (como se não fosse um problema de classe e colonial).

De alguma forma, o PowerPoint não deixa de atender a observação de Flávia Oliveira: no ano em que os brasileiros vão às urnas, um escândalo complexo (e primordialmente à direita) é imageticamente e imediatamente ligado a Lula e seu partido. O expediente é antigo, mas não se pode acusar a Globo de deixar a classe política de fora do escândalo, ainda que a inclusão feita seja especulativa, ou seja, flerte com a ficção. O grupo é o último da grande mídia a aderir um movimento que se intensificou nos últimos dois anos, de usar o atual estado de social-democracia como uma espécie de chantagem, assinalando o bolsonarismo como bicho-papão à espreita (um artifício que a Folha, por exemplo, aderiu faz tempo). O problema desse “novo” movimento ser marcado por um PowerPoint tão constrangedor é que a Globo deixa isso tudo tão evidente que as negociações que embalam sua credibilidade acabam suspensas ao espectador que procura algum jornalismo nesta terra de “Choqueis”. Com o ppt da teia vermelha, a Vênus Platinada dá a impressão de imitar outros canais, que fazem esse tipo de delírio de maneira mais genuína, porque abrigam, de fato, gente delirante. Se for para ficar nos relances sensoriais e cognitivos, o espectador pode querer zapear até uma emissora mais raiz nisso que a Globo ensaia voltar a fazer. Se os ppts seguirem até as eleições, periga o telespectador olhar e pensar — talvez seja melhor ir logo para a Jovem Pan.

ps.: Antes que me acusem de ser leviano, falo em PowerPoint, mas, sim, pode ser Canva.