por Álvaro André Zeini Cruz

A novela está nos eixos — pelo menos, no quesito artístico — quando uma cena de jantar romântico usa temperos, a um só tempo, sutis e comoventes. Falo do penne acompanhado pelos camarões que saltaram aos olhos de Gerluce (Sophie Charlotte): “moço, você errou a mesa”, diz ela a Paulinho, o namorado, antes de mudar o tom da brincadeira ao desconcerto — “não precisava, deve ter sido caro” — para, depois, transformar-se de novo: “camarão assim eu só vejo passando”.
É um diálogo aparentemente simples, mas que Sophie Charlotte e a direção interpretam com delicadeza, numa modulação de motivações que é reveladora. Isso porque a cena expõe a faceta menos vista de Gerluce, que, desde o início de Três Graças, se arma em jeans e batom como uma espécie de Robin Hood cuja justiça social parte do ato fundamental de cuidar. Ela dá pistas (outra inteligência do texto e da interpretação) de que, por trás da guerreira — cuidadora como profissão, mas também da mãe, da filha e, agora, da comunidade — há uma mulher com sonhos e desejos, mas a trama principal demanda que Gerluce exponha mais a primeira face. É Paulinho — o mocinho milimetricamente composto com inteligência por Rômulo Estrela — quem, pela ação de ouvi-la, oportuniza que Gerluce desvele a outra, com particular intensidade nesse jantar de textos e closes azeitados.
A conversa segue com Gerluce observando que a correria do trabalho costuma antagonizar qualquer regalia (na verdade, é menos o ritmo do que as desigualdades trabalhistas que atravancam as regalias). O diálogo que, antes, tangenciava o social, poderia seguir nessa toada, mas Gerluce faz uma redução desse molho, evaporando a rotina dura para trazer algo de si, mais profundo, um desejo íntimo que lhe embarga a voz. Quando ela abre a boca para dizer “tô me sentido…”, Paulinho a interrompe, perguntando “o que?”. O interesse afoito e genuíno não é egóico; pelo contrário, ele deseja ouvir tudo e qualquer coisa que aquela mulher tem a dizer. A interrupção, no entanto, acaba sendo o golpe final em Gerluce: não é só a voz que embarga, mas também os olhos que umedecem entre a tristeza de uma vida doada e o brilho de ter diante de si algo novo, algo que, de alguma forma, a resplandeça. Ela, então, abaixa o rosto e, com um quê quase trágico, despeja no prato, junto aos camarões, a palavra que ela também imagina não lhe caber: “… uma princesa”.
Quem acompanha Três Graças sabe que Gerluce não é, nem deseja ser, uma princesa de contos de fadas, daquelas cujo protagonismo é cristalizado entre passividade e reatividade que já não cabem às telenovelas. O resgate da imagem da princesa, no entanto, é comovente, justamente, porque Gerluce julga, equivocadamente, que essa máscara não cabe a uma mulher como ela, pobre e mãe solo. No desvio do rosto, deixa escapar a conformidade com uma solidão que, vez ou outra, é suspensa por um ou outro affair; também o cansaço de cuidar e o estranhamento em ser cuidada, como se o fato de ser ouvida, bem tratada e amada fosse de encontro a uma crença interna, ensinada e solidificada pela vida. Por outro lado, a inteligência da cena está em compreender que Gerluce não tem diante dela o príncipe do cavalo branco — que salva para a vida toda e, assim, esvazia uma vida inteira —, mas um outro príncipe, do tipo que a salva do ônibus lotado no fim do expediente, sendo retribuído pelas aventuras que a princesa tem a contar.
Quando Gerluce lembra que, em dois dias, a vida real atropelará seu conto de fadas, traça um deadline, comparando-se com Cinderela e a hora da abóbora. Mas Gerluce não tem tempo, muito menos vocação para gata-borralheira; ela é a heroína e seus esforços estão quase todos dedicados a salvar os pobres. Sua comovente comoção é um instante de fotogenia — compreendida como a graça do movimento, da transformação — em que ela se acende, apaga e re-ilumina ao se reconhecer refletida no olhar do outro: um olhar mais terno, mais justo, mais aberto. Nesse sentido, Paulinho se faz como um Rei Shariar às avessas, já que o prazer em ouvi-la traça a dilatação da vida como objetivo principal, e a postergação da morte como mera consequência. A própria Gerluce se inverte como uma Sherazade cuja narração não é mais um artifício ilusório em prol da sobrevivência, mas a partilha homeopática — em cenas, capítulos e caronas — dos pedaços de uma vida de verdade. Entre esse príncipe, que ouve e cuida, e a princesa que luta e conta, vai se fazendo um bom casal de ficção. De novela das 9.