Pós-créditos perguntou: o que é a crítica e o que ela não é?
Sem muitos rodeios, a proposta desta pauta é expor um quadro — reiterando o fato de que todo quadro é um recorte — com respostas breves e assertivas, tentando capturar olhares (por si só diversos), sob efeito de lampejos distintos e, sobretudo, com pupilas reguladas por diferentes demandas e urgências. Esta bricolagem textual é fotográfica, uma vez que cristaliza determinadas vistas num todo. Por outro lado, as bordas não se desfazem, o que evidencia a individualidade dos textos, sem perder de vista as fronteiras, os atritos presentes e possíveis. São excertos que se apresentam como pequenas placas tectônicas, fadadas à inconstância, à mutação, ao movimento. Que esta enquete seja lida para que se torne vista, não no sentido de permanência, mas no justo oposto, de passagem, relâmpago, filme, uma condução a outros lugares. Em fotogramas frasais e planos curtos, 17 críticos deixaram pistas que, entre sínteses do é e o não é, abrem um universo do que pode ser. Os textos seguem em ordem alfabética, constando, abaixo dos nomes, algumas publicações nas quais pode-se encontrar textos dos que, generosamente, contribuíram para esta pauta.
Boa leitura.
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Dalila Martins
Revista Cinética, Cineclube Disgraça
Como disse Rubens Machado Jr., meu ex-orientador, “crítica pode ser muita coisa diferente, exceto violência”. A crítica não é dogmatismo, nem chancela. Não se trata de ter razão, nem de julgar cabalmente, impondo interpretações apressadas e valorando meritocraticamente.
A crítica é a “paciência do conceito” – como no belo título do livro de Gérard Lebrun sobre a filosofia de Hegel. Pressupõe abertura à complexidade e atenção à imanência. É um exercício criativo de alteridade. Enquanto expressão, está mais próxima do ensaio, cuja matéria é a experiência.
Euller Felix
Dialéticas da Imagem, Pós-créditos
A crítica é diálogo. Diálogo entre filme, crítico e leitor. Diálogo esse que abrange leituras e releituras de obras.
A crítica não é uma verdade única, não é uma forma de métrica de uma obra. Não é uma forma de quantificar um objeto artístico.
Gabriel Carneiro
Pós-créditos, Zingu!, Revista de Cinema, Cinequanon
A crítica é colocar a obra em crise; é uma proposta de leitura e reflexão a partir de sua forma.
A crítica não é resumir a história e comentar a respeito.
Giovanni Comodo
Coletivo Atalante, Professor de crítica na Unespar
A crítica é diálogo, sempre.
A crítica não é a última palavra.
Liciane Mamede
Pós-créditos, Cinequanon
A crítica é uma exegese, ou seja, a análise cuidadosa de um objeto, que leva em consideração suas dimensões formais e de conteúdo a partir do contexto em que ele surgiu. Para tal análise, a crítica leva em consideração as tradições estéticas e de linguagem nas quais o objeto se insere e com as quais ele dialoga formalmente. A crítica inclui a descrição desse objeto, mas não apenas. A partir da descrição é preciso um mergulho em camadas mais profundas de significação. A crítica não deixa de ser um ponto de vista, ela é possível a partir de um olhar, de um repertório, de interesses específicos, de um lugar no mundo que vão direcionar a interpretação e a análise.
A crítica não é mera descrição formal e/ou conteudística de um objeto. Ela não é apenas uma opinião ou um conjunto de opiniões sobre uma obra. Tampouco, por seu caráter de ponto de vista situado no tempo e no espaço, a crítica é um propósito objetivo, ou constitui uma verdade absoluta.
Luiz Soares Júnior
Dicionários de Cinema, Cinética, Multiplot!, À Pala de Walsh
A crítica é, precisamente, aquilo que exalta a presença do filme: uma presentificação, em uma outra linguagem, mas solidária à que realmente interessa, do filme; o bom crítico é aquele que sabe traduzir sem trair, que pode e deve representar a experiência de ver um filme sem nunca se deixar levar pelo próprio narcisismo, pelo império de seus gostos e desgostos; é sempre o conhecimento do filme que conta, não o crítico ou seu meio.
A crítica não é um exercício masturbatório que etiqueta o filme sob conceitos e representações a priorísticas, genéricas como a comunicação: tudo aquilo que foge à presentificação do filme, ao aprofundamento de sua experiência, à ilustração de seu conceito e de seu fantasma; a crítica não é aquilo que serve ao ego do crítico e de seu público, uma vez que o trabalho deve servir ao conhecimento do filme; mesmo um texto com um quantum estilístico elevado deve estar ciente de que o filme é nosso único telos.
Marcelo Ikeda
Cinecasulofilia
A crítica é por o filme em crise, isto é, ela visa à ampliação de outros horizontes para o pensamento crítico, é um estímulo que faça o espectador não mais saber o que é o filme que ele pensou ter visto.
A crítica não é julgamento de valor se o filme ou o cineasta é “inocente” ou “culpado”, modelo professoral de “como o cineasta deveria filmar” ou que ensina para o público “o que ele deveria ter visto”, muito menos institucional feito para divulgação ou publicidade do filme.
Marcelo Miranda
Folha de São Paulo, Carta Capital
A crítica é um constante encontro entre possibilidades de apreensão e afetação e o exercício da crise como projeto de pensamento, é olhar para a obra de arte e trazê-la à reflexão, ao corpo ao corpo com a vida, com o raciocínio, é também se deixar tomar pela obra e devolver seu impacto através das palavras, dos gestos e da partilha sensível.
A crítica não é opinar sem consequências, julgar gratuitamente, achar sem lastro, dar certezas sem existir certo ou errado, não é cuspir sua vida em cima da obra, não é se colocar acima da obra, não é ser indiferente, a crítica jamais pode ser não amar uma obra, seja ela qual for.
Matheus de Melo
Pós-créditos, substack Noite e Neblina
A crítica é, por natureza, um ato de invasão. Mas não uma invasão feita pela porta principal, aquela por onde todos entram, guiados pelo caminho mais óbvio da narrativa. O crítico não se acomoda no lugar reservado ao espectador comum. Ele prefere entrar pela porta dos fundos, ou melhor, pela janela, o que significa olhar a obra a partir de um ângulo inesperado, atravessar suas frestas, procurar o que está à margem, nos detalhes que escapam ao olhar apressado. A crítica invade aquilo que é seu, sua obra, seu gesto criativo mas não para profaná-la mas para penetrar e revelar outras camadas, outras lógicas, outras possibilidades de sentido.
A crítica não é polícia, nem serviço ao espectador. Não é porta da frente, nem eco do diretor. Não existe para confortar, classificar ou servir ao algoritmo. Não é objetiva, nem neutra: entra pela janela, desloca, questiona. Não simplifica, complica. Não encerra o filme, prolonga-o. A crítica não é resposta; é fricção. Não confirma o óbvio, revela o que escapa. Não é fim, é outra forma de começar.
Mauricio Stycer
Folha de São Paulo
A crítica é sempre autoral, precisa ser independente, tem a função de descrever qual foi a intenção da obra, avaliar se alcançou os seus objetivos, discutir como fez para chegar ao seu resultado, identificar se foi original, sublinhar o seus pontos positivos e negativos, chamar a atenção para aspectos que não estão na superfície, apresentar o seu contexto, ajudar o espectador a olhar criticamente para o que está vendo e, até, quando isso ocorrer, reconhecer honestamente que teve dificuldades de compreender o seu objeto.
A crítica não é apenas um guia de consumo, não é educativa, não tem a obrigação de ser ‘construtiva’, não deve reproduzir lugares comuns, não deve ser idiossincrática, não pode ser condescendente, não deve bajular ninguém, não pode ter medo de desagradar o leitor, não pode ter compromisso ou vínculo profissional com o objeto de sua análise, não pode ser preconceituosa, não deve ser enigmática ou confusa, não pode ser mal escrita, não pode ser desinformada, não deve perder o bom humor jamais.
Miguel Haoni
Revista Madonna
A crítica é um trabalho. É observação e pesquisa disciplinada, leitura e reflexão exigente, é escrita cuidadosa. Exige tempo de dedicação na composição do repertório, na lapidação da ideia, no artesanato da linguagem. Em suma, é um trabalho como qualquer outro; por isso, precisa ser remunerada. A desprofissionalização produziu dois resultados tristes: críticos interessantes, às vezes geniais, precisam abandonar o ofício, ou legá-lo a um segundo plano, para atender às necessidades materiais. Vemos diversos críticos com imenso potencial surgirem e desaparecerem pelo simples fato de que precisam trabalhar em outra coisa para sobreviver. Muitos dos que conseguem se desenvolver na crítica – e este é o segundo resultado – não precisam se preocupar com o que vão comer no dia seguinte. E erigem sua visão de cinema em cima deste privilégio. O que, invariavelmente, condiciona seus textos do ponto de vista estético e, principalmente, ético. Afinal, o que pode nos dizer sobre o cinema (e consequentemente sobre o mundo ou a vida) um rapaz de 50 anos, sustentado pelos pais, que passa o dia inteiro no letterboxd? Isso nos leva à segunda afirmação.
A crítica não é um divã. Muitos dos que seguem escrevendo tentam, através dela, desviar de problemas psicológicos sérios. São pessoas feridas, traumatizadas, que se recusam a encarar suas crises de frente e se fabricam autoimagens heroicas, de cruzados que lutam sozinhos contra a ignorância reinante. Odeiam as “pessoas normais” e os filmes que elas elegem, odeiam as mulheres (“que tanto mal fazem a eles e ao cinema…”) e odeiam a si mesmos, gozando apenas quando são humilhados pelos gurus. Cheios de ódio, eles querem nos falar de amor, de Ford e Godard, instrumentalizando a cinefilia, encastelando-se num formalismo alucinado, para poder, enfim, se vingar da vida. À crítica de cinema falta sobretudo terapia, um bom banho e – como nos mostrou Jean-Claude Brisseau – arrumar o próprio quarto.
Nicole Menegasso
Pós-créditos
A crítica é o caos. É o desmonte da obra para entender o que parece escondido e uma bagunça que, às vezes, desconforta o leitor. Ela não nasce da teoria, nasce das sensações. Desorganiza o estável, expõe o que estava oculto e cria um complemento não solicitado da obra. Tem coisa mais caótica do que isso?
A crítica não é conforto. Ela funciona pra deslocar o leitor. Esperar conforto da crítica é confundi-la com explicação.
Paulo Henrique Silva
Revista Elipse, Jornal O Tempo
A crítica é a forma como aproximamos o filme de um determinado público, já que, oriunda do jornalismo, tem um caráter comunicacional muito forte, estabelecendo critérios e métodos – a priori, subjetivos – para dimensionar uma obra dentro da linguagem cinematográfica. Um filme pode ser bom ou ruim para determinado crítico, mas se faz necessário que ele explicite os seus julgamentos a partir de elementos históricos, estéticos, narrativos e morais
A crítica não é um mero juízo de valor sobre um filme. Diferentemente da resenha, que se contenta em resumir a história e dar uma opinião superficial, a crítica tem que ser atrelada a conceitos mais ou menos universais sobre arte. Ela também não é um ensaio, de abordagem mais complexa, estando num meio termo em que se faz importante passar uma análise que tem como foco um público interessado no tema
Pedro Faissol
Professor de crítica, Foco
A crítica é a expressão de uma experiência individual compartilhada. Tal expressão depende necessariamente da escrita. O gosto pela palavra, portanto, é um traço incontornável da atividade crítica. Daí se infere que ela é um ato de criação. A crítica cria, pensa, faz circular o pensamento e dá sobrevida ao filme. A crítica tem mais a ver com preservação do que se imagina. Além disso, toda crítica deve estar ligada a uma tradição crítica. A crítica do presente imprescinde da crítica do passado.
A crítica não é a segmentação de uma obra. O valor do filme de forma alguma corresponde à soma de suas partes. A obra não deve ser fatiada para atender às conveniências do crítico. Convém distinguir também a crítica do comentário. Um comentário isolado sobre um filme não deve ser confundido com crítica de cinema. A atividade crítica depende de um pensamento mais ou menos programático (ou pelo menos de uma visão de conjunto) acerca do cinema produzido em um determinado contexto.
Roberto Cotta
Rocinante
A crítica é um fracasso, porque representa tudo aquilo que parece não importar: consciência, consistência e análise (descrição, interpretação e síntese).
A crítica não é exitosa, pois não sendo uma resposta superficial ao mundo, não atende àquilo que se supõe interessar, isto é, chavões, estereótipos e outros lugares comuns.
Sérgio Alpendre
Folha de São Paulo, À Pala de Walsh, Paisà, Interlúdio
A crítica é honestidade, clareza, estudo, olhar, sensibilidade, inteligência, generosidade. Como escreveu Jean Douchet, é a arte de amar.
A crítica não é: batalha de egos, vingança pessoal, fazer média com alguém, forçar/enganar/tangenciar para se dar bem com alguma turma, mentira, destruição de reputações, má vontade, ter olhos presos.
Álvaro André Zeini Cruz
Pós-créditos
A crítica é, com uma mão, apontar uma lanterna para iluminar um pedaço da alma do filme e, com a outra, tentar descrevê-lo com a própria carne, acreditando na possibilidade de beleza nessa tarefa de Sísifo.
A crítica não é ressentimento, estatística, check list, trend, clickbait, estratégia SEO, dancinha, fã-clube, duplo twist carpado seguido de lambaeróbica da métrica dos 2 primeiros segundos de retenção da atenção em reels (ou qualquer coisa que a reduza a consumo).