por Álvaro André Zeini Cruz

Sextou. Lavei a louça da manhã, cozinhei o macarrão e o molho improvisado, fritei os bifes. Àquela altura, limpava o fogão, à espera de Mariana para o almoço. Fiz tudo isso ouvindo o audiobook que tem me acompanhado nessas tarefas de pia nas últimas semanas — It, de Stephen King. Parte 2, capítulo 8: no quarto do irmão morto de Bill, ele e Richie veem as fotografias de um álbum ganharem vida; Bill e Richie não deveriam estar na velha foto, mas estão. A voz que narra trabalha a transição do suspense ao horror:
Eles foram até o muro baixo de concreto, e de repente o palhaço surgiu atrás como um boneco horrível saindo de uma caixa, um palhaço com o rosto de George Denbrough, com o cabelo penteado para trás, a boca com um sorriso medonho cheio de tinta manchada, olhos de buracos negros. Uma das mãos segurava três balões com barbante. Ele esticou a outra para o garoto de roupa de marinheiro e segurou seu pescoço.
— NA-NA-NÃO! — gritou…
— Aqui está Foro de Teresina no Spotify!
Uma voz incomodamente animada rasgou a outra no volume máximo, mais intrusiva do que nunca; não era a voz do narrador do livro, nem de quando ele interpretava Bill (cuja fala fora interrompida). Era a voz semanal da Google Home, essa inteligência artificial que, aqui em casa, se autoprogramou para reproduzir o Foro todas às sextas (às vezes nem estamos, mas a turma do Fernando toca, fazendo companhia para Nina, a poodle, e Margot, a vira-lata). Nesta sexta, esse gritante atropelo narrativo acelerou meus batimentos cardíacos e me fez arremessar a esponja cheia de espuma. Só quando o jingle entrou, meu cérebro entendeu que não era a Coisa falando pelo ralo da pia, mas a Google tocando “as coisas boas e coisas novas”.
Acho que não assusto assim desde que James Wan meteu um demônio atrás de Patrick Wilson num contracampo de Sobrenatural. Mentira, acho que não assusto assim desde aqueles dias em que o Foro se propunha a narrar o governo da outra Coisa, aquela que, vez ou outra, ainda ousa arrotar pelos ralos.
ps.: ainda não ouvi o Foro; Mariana briga quando ouço sem ela.